A propósito de um artigo de Popkewitz, que não consigo localizar, com o título "Whose Heaven and Whose Redemption", uma reacção de Kristine Jess e outra de Tamara Bibby. São já de 2002, e foram apresentadas numa conferência internacional sobre Sociedade e Educação em Matemática.
A criatura observou:
- uma mulher sem carta é um parasita da sociedade.
Pensei que aquela observação me atingia. Á noite, do regresso, no táxi, percebi o erro: ela disse carta e não caro. A conversa, presumo, terá seguido assim: - eu por exemplo, como tenho carta, pego no carro do meu marido e vou para qualquer lado.
A mulher não tem posse.
A mulher é gorda porque não cabe no banco do comboio.
A mulher é feia porque é gorda.
A mulher não é normal porque não cabe no banco do comboio.
A mulher é normal porque é feia, como toda a gente.
o banco é normal e foi feito para pessoas normais.
A mulher não cabe no banco.
O banco foi testado com uma pessoa normal.
o banco não foi testado.
Ninguém cabe no banco.
Para ninguém foi desenhado o banco.
A mulher não existe porque é normal.
"Pode afirmar-se que o pós-modernismo é o primeiro código literário que se formou na América e influenciou a literatura europeia...
Enquanto os modernistas aspiravam a estabelecer uma visão do mundo válida e autêntica, ainda que estritamente pessoal, o pós-modernista parece ter abandonado qualquer esforço no sentido de representar o mundo de acordo com as convicções e a sensibilidade de um sujeito...
...
O autor aparentemente é indiferente ao estatuto do seu texto, pouco lhe importa como e onde começa, como se encadeia, como e onde acaba, se consiste em signos linguísticos ou outros...
O pós-modernista está convencido de que o contexto social consiste em palavras e que cada novo texto é escrito sobre um texto anterior ...
a dúvida ontológica pós-modernista está contida nas palavras e só por elas se pode exprimir...
... uma história consiste na aprendizagem do modo de compreender o código - um código que nos abre os olhos para que possamos ver o hábito de repetirmos, sem disso termos consciência, o que se desgastou semanticamente...
Este é um dos principais problemas «filosóficos» que o pós-modernismo pôs em discussão. A indiferença consistente ou a não selecção não parece ser uma qualidade humana, e dificilmente se pode conceber...
Em geral, o pós-modernismo mostra preferir as palavras ao silêncio, a imaginação à experiência, o texto verbal ao contexto empírico. É aqui que o código pós-modernista mostra as suas tendências; no momento em que se tenham exposto e sejam do conhecimento de um vasto grupo de escritores e leitores, terá chegado o tempo para a sua substituição por outro código, que necessariamente manifestará as suas tendências para outros aspectos.
O código pós-modernista poderá ser ligado a um certo modo de vida e a uma certa visão da vida, comuns no mundo ocidental, incluindo parte da américa latina...
è inconcebível uma recepção favorável do código pós-modernista na China...
O código pós-modernista tem claramente limitações geográficas e sociológicas, o que constitui um factor adicional para que, no futuro, próximo alguns escritores queiram estabelecer um novo código. Inicialmente será um código difícil, perturbador, embaraçoso, mas poderá acabar por se mostrar adequado para exprimir e talvez resolver alguns dos nossos problemas actuais"
(Douwe W. Fokkema, História Literaria, Modernismo e Pós-Modernismo)
"Num tempo em que se assume que “somos arquipélagos de subjectividades que se combinam diferentemente sob múltiplas circunstancias pessoais e colectivas (BSS, 1994, p.96), a noção de unidade é posta em causa, cada um se reconhece múltiplo e em construção, nem unitário, nem fixo. Conflui, aqui, a tentação do indivíduo se construir à revelia dos outros, em independência e em solidão, simulando para si próprio uma coerência que à partida não existe, uma transparência enganadora, por se basear na negação de si próprio e da sua complexidade, ou a tentação de se construir tão só com base na imagem construída pelos outros, nas imagens que se pensa serem sua expectativa, simulando uma identidade que o próprio sabe ser falsa ou pelo menos parcelarmente verdadeira ou onde o próprio falsamente se reconhece.
Em última instância, ambas as situações são simulações que dão ao próprio um sentido de segurança e um aparente controle sobre si próprio e sobre o que o rodeia. Mas estes podem ser também caminhos de superficialidade ou disfuncionalidade se, para além disso, ou em vez disso, o indivíduo não se envolver no aprofundamento de si próprio, em ligação com o seu ‘impulso e processo” (Wood e Zurcher, in Rosneau, 1991, p. 59), na interacção crítica com os contextos, dando voz às suas vozes, confrontando-se com as dos outros e procurando os seus próprios caminhos de comprometimento e de resistência (aos seus condicionalismos pessoais e sociais). Abre-se aí uma via de imprevisibilidade e de risco, mas também por isso de riqueza e qualidade, que poderá favorecer o desenvolvimento da confiança em si e da autenticidade. Uma autenticidade entendida aqui no sentido da afirmação do indivíduo como sujeito, criador de si próprio e ‘revisor’ de sociedade, encontrando os seus sentidos com o suporte do imaginário (Chebaux, 1999), na relação interpessoal com o outro (e não apenas em si mesmo ou na relação impessoal com o colectivo), ‘unindo o desejo e necessidades pessoais à consciência de pertença (Tourraine, 1992, p.261) e resistindo às imagens de si que a sociedade lhe impõe. Uma autenticidade onde a simulação pode ser, enquanto forma de criação de novas possibilidades e procura de conhecimento, o seu meio de concretização, aceitando e aproveitando a condição contemporânea de ‘um mundo real construído dentro … através de modelos de simulação (Baudrillard, 1983). Superando assim a conformidade a modelos sociais onde não se reconhece, sem se subtrair aos contextos socais em que se inscreve. Aceitar essa vulnerabilidade e o risco é assumir a diferença, a singularidade e a individualidade como um valor, uma individualidade que não signifique nem individualismo nem isolamento, que não resulte em apatia ou narcisismo, mas que também não redunde em auto-criticismo excessivo. Uma individualidade que se constrói na interdependência com os outros, embora também na solidão de cada um, porque ‘o arrancar à obscuridade equivale, muitas vezes, a destruir, e a colocar na sombra, a proteger-se (Serres, 1996, p. 199). Este é um jogo cujas regras não são nem constantes para cada indivíduo, nem muito menos comuns para todos eles. Encontrar os modos de ultrapassar o individualismo e o isolamento, bem como resistir à tentação de simulação, à revelia da autenticidade e de dignidade pessoal, encontrar os modos de cada um construir essa autenticidade, sem deixar de se perceber híbrido, plural, descentrado, distanciado, produtor e produto de miscenização, são alguns dos desafios que, nessa tensão entre modernidade e pós-modernidade, se colocam aos vários níveis da acção humana. "
(Caetano, 2001)
O Quadro
(a rapariga sorri sem intermitência. sorri sempre )
- Parece que estamos a ver uma pintura. e podemos analisá-la, vista assim, de fora.
- Parece que estamos a ver um espelho. analisas a pintura. isto é, analisas-te.
- o sorriso dela lembra-me uma palavra: ilusão.
- Ilusão: tua? ou dela?
A expectativa (que gera ilusão)
- o que achas que quer dizer essa atitude dela?
- não sei, nem me interessa. Não tenho relação nenhuma com ela. Para mim, ela é só um estranho com um rosto familiar. Não a conheço.
- Essa expressão é boa: "um estranho com um rosto familiar". Há todo um pressuposto a sustentá-la... Pode uma cara familiar ser um estranho?
- Uma imagem física diz muito pouco sobre a outra pessoa. É preciso conhece-la.
- Mas talvez diga muito de ti. Um estranho com um rosto familiar pode revelar muito a teu respeito. O rosto. As linhas que compõem um rosto que tu olhas, que tu queres olhar. O outro estático, o outro rosto e braços e mãos e corpo e voz diz muito sobre ti. Porquê esse outro e não um qualquer outro?
- Estás sempre a tirar ilações de tudo o que eu digo... Não estarás tu a fazer projecções sobre mim?
- Não percebo.
- Recuso-me a falar. Isto é apenas um jogo de palavras. É lógica, desprovida de significado. É só um xadrez. Tu dominas a arte do jogo linguístico.
- O significado... era tudo o que eu procurava. Por isso te digo que é tudo mentira. É tudo mentira. Não me compreendes. O que te habita quando falas? Qual o moviemnto da palavra que me proferes? De onde vem o teu discurso e o que ele procura? Quando eu sei que tudo é tão relativo, que tudo é mentira... Já não há verdades, já aprendemos isso. Agora estamos por nossa conta. E ainda assim, falamos... discursamos, dizemos isto e aquilo... mas porque isto e aquilo?
- Isso são fundamentalismos! Tu tens de conhecer as pessoas. Conheces o rosto através do diálogo.
- E conheceremos o outro através da fala? Só através dela? Ou pode um estranho de rosto familiar não ser estranho? Será teu o teu discurso?
- Há que ser honesto, honrar a palavra.
- Todas a palavras? Honrar todas as palavras? Faze-las nossas? Então há que ter cuidado, falar pouco.
- Assim pergunto-me porque é que falamos...
- Sim, porque é que falamos?
- Não sei.
- Não sabes. Ainda assim, falas.
- Terias de perguntar aos primatas porque é que começaram a emitir aqueles grunhidos!
- Não em pergunto sobre o que nos permite falar mas antes do porque de falarmos. porque é que tu falas? O que é que te torna sujeito do discurso? Quem te habita quando discursas? Quem falará por nós?
- Qual é a tua finalidade?
- Em que?
- Em registar a conversa.
- É essa: registar a conversa. Materializá-la. Há muita gente doida por aí.
A exposição musical (ou da estética e do desejo)
- De que musica dela gostaste mais?
- Gostei mais dele. Quer dizer, o que mais gostei foi o arranjo que ele fez.
- Isso é o mesmo que te levar a uma exposição de pintura, perguntar-te de que quadro gostaste mais e tu responderes: da legenda!
- Sim, pode ser.
- Mas eu respeito a tua opinião. Somos todos diferentes. É uma opinião legítima.
- Legítima porque?
- Porque somos todos diferentes e temos de aceitar essa diferença.
- Até onde? Se esta é legítima, haverá outra que não seja...
- Não, são todas... são todas legitimas...
- Então porque é que dizes que é legítima? É porque nunca deixará de ser diferença.
Retoma
- Um estranho com um rosto familiar... É uma boa expressão.
- Não é assim. Também há familiares que são estranhos. Achas que há dor maior do que perceber que não conheces alguém que esteve sempre ao teu lado? Lembras-te do Julio Cesar? "Até tu Brutus..."
- É o mesmo que não conhecer alguém que é ainda estranho.
- É diferente: aí não há desilusão.
- mas há uma parte de ti que não conehces, que o outro, estranho, te não devolve, embora tu suspeites intimamente que ele a guarda. Vês o outro, vês um espelho. O rosto do estranho mostra-te qualquer parte de ti, que te habita, e que tu não conheces.
- Mas quando tu já conheces o outro, podes desiludir-te.
- Também aí se trata de te conheceres a ti. O outro devolve-te uma imagem tua. Um dia, começa a devolver-te uma imagem diferente, tua ainda, mas que desconheces. O outro é sempre muitos. Assumes que o outro é habitado por um só outro, estável, contínuo no tempo.
- Eu não sou eu nem sou o outro...
- E o outro é muitos... em intermitência.
"No mundo dos homens, as coisas, os objectos, as acções e as atitudes valem mais pelos contextos, interacções que lhe dão sentido e validade, pelos significados que possuem, do que por si mesmos. Sendo assim, cada homem é o resultado de todos os outros homens e a educação é um processo lento, contínuo e muito complexo em que os sentidos implícitos em todas as situações se vão articulando e integrando num sentido mais geral, uma articulação de símbolos em ordem à construção de um mundo de relações psico-afectivas e imaginárias, de natureza culural, uma vez que são significativas dentro de uma cultura." (Amado & Boavida)
Perspectivas narrativas às quais alguns contrapõem:
"A asserção pós-moderna de que é relativamente ilegítimo assumir a existência de grandes narrativas de legitimação (...) leva à contradição, ao niilismo e ao oportunismo. Leva à contradição porque negar a existência de (grandes) narrativas acaba por ser a asserção de uma meta-narrativa, algo que se queria evitar a todo o custo. De outro modo, todo o apelo à desconstrução acaba por ser ele mesmo uma construção. Isto é, a 'ideia de que existe uma versão dos acontecimentos que é verdadeira, todas as outras sendo falsas, está em contradição com a asserção central do construcuionismo social de que não há nenhuma 'verdade' mas apenas construções múltiplas e relativas da realidade (Burr, 1995)" (Lourenço, 2002).
(ou o título de uma dissertação académica premente)
De como tudo o que nos ensinaram é mentira, sendo embora verdade e necessário agir como sendo verdade, sabendo ainda da impossibilidade da superação de eu ser eu e tu seres tu já que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa para clarificar o postulado da hologramaticidade de as coisas serem as coisas até porque eles tinham de nos dizer alguma coisa.
- Contributo exploratório.
Eu estou a falar de currículo mas não estou a falar de currículo.
Eu estou a falar.
"Ocorre que a verdade, extraída da pesquisa
pós-crítica, não tem condições de funcionar nessa posição,
porque a linguagem da teorização - usada para pesquisar
a verdade linguajeira de um currículo - não pretende, nem
diz tudo. Por causa desta característica da linguagem pós-crítica,
a verdade que resulta da pesquisa é sempre um semi-dizer,
uma verdade que não pode ser dita toda.
Há um impossível de dizer, na linguagem com que se pesquisa,
que a pesquisa encarna.
(...)
[A pesquisa pós-crítica] Exige também que, para ser
pesquisador/a, cada um/a opere na penumbra do que
não sabe direito o que é: na penumbra da eficácia
simbólica da linguagem. Que percorra os rizomas
das significações culturais, que o/a fertilizam,
para praticar a pesquisa educacional de forma
poética. Pesquisar-poetar: viver, em uma palavra.
Arriscar, assumir o risco da morte, que é estar viva/o.
E, assim, realizar a sua sina e situação de estar no mundo,
viva/o sem considerar-se um produto acabado."
(Sandra Corazza: O que quer um currículo?
Pesquisas pós-críticas em educação)