junho 13, 2005

Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

(Eugénio de Andrade)

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maio 02, 2005

Recados de um mestre interno

Esse vazio incrível
que está dentro de nós,
esse vazio que também somos,
há que aceitá-lo.
Com ele comunicar.

§

Os Corpos
não aproximam as Almas

São as Almas
que devem levar os corpos
a encontrarem-se.


(Maria Flávia de Monsaraz, Recados de um Mestre Interno)

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abril 28, 2005

Uma Criança em Mim

Fui ter com ela. Descontraída. Antecipando a festa das duas.
A menina estava sentada na areia, sobre os joelhos, de costas para mim e para o mar de onde eu vinha. Parecia brincar com o seu castelo de areia. Mas quando nos olhámos nos olhos encontrei uns olhos intensos a engolir as próprias lágrimas. As mãos desesperadas, a construir um mundo que ela sabia em breve vir a desfazer-se. O corpo a resguardá-lo. O corpo a resguardá-la. O corpo, a representar uma peça. Encenação de uma menina que se dizia feliz. E o meu mito a desmoronar-se. E ela a dizer-me com os olhos que ninguém, ninguém tinha vindo ter com ela. Nunca ninguém. Até àquele dia. Que ela sempre esperara, por aquele dia. por um encontro assim.
E eu sem saber o que dizer, o que fazer. As mãos estendidas, sem lhe conseguir tocar. Queria abraçá-la, mas não sabia como. Não fazia sentido. Só pelos nossos olhos, sem palavra alguma. E assim entrámos uma na outra. A beber lentamente o brilho de cada uma, pelos olhos uma da outra. Até o meu corpo se transformar em poça de água e ela saltar nela, nadar, rir e abraçar-me. A pele macia. Barriga na minha barriga. O calor dela. Uma pena infinita de a ter deixado tanto tempo só. E eu também tão só, tanto tempo. Deitei-me de costas. Ela enrolando-se no meu pescoço, por detrás. A recuperarmos o tempo. prometendo uma à outra encontrarmo-nos sempre. Nos nossos sonhos.

(Ana Viana, A Casa Acordada)

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março 22, 2005

Pedro Mexia, Vida Oculta

No meu fim

Se no meu fim estivesse o meu princípio, mas que
Fé é essa que te não faz feliz, como se o mundo
Permanecesse vestígio de luzes e metais de quem
Passa a toda a velocidade num caro que não conduz.


Há nenhum tempo
(e.e. cummings)

há nenhum tempo
há uma vida
caminhando no escuro
encontrei Cristo

Jesus) o meu coração
Saltou
E ficou quieto
Enquanto ele passava (tão

Perto como eu estou de ti
Sim mais perto
Feito de nada
Só de solidão


Blow Up

Tenho fotografias que provam
Que nunca exististe.

Código Civil

Raparigas abraçadas ao Código Civil,
Serve para alguma coisa,
O Código Civil, nunca imaginei,
Que bom ser Código Civil.

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março 17, 2005

Segura-te ao meu peito em chamas

“Não sei se foi da hora, dos dias de isolamento, ou da maneira descontraída, mas citadina, do vestir, mas senti um frémito percorrer-me. Reparei no seu cabelo escuro e na pele de bronze (como dantes se dizia; no tempo em que se faziam estátuas com figuras humanas); na leve penugem que lhe cobria os braços; nestas coisas todas a dançar nas águas. E, vi, sobretudo o céu reflectir-se neste corpo novo. Romanticamente. Como se os anjos tivessem descido à terra, cobrindo de parras a sua nudez.

Á medida que os minutos iam passando, a sua pose foi ficando mais relaxada; as suas pernas cruzavam-se e descruzavam-se, a plumagem a agitar-se na morna brisa que, então, se levantara. Os calções largos e compridos a deixar entrever segredos meus. De que nunca me atrevera a suspeitar até aí."

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fevereiro 24, 2005

Poesia árabe

Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele tu estivesses,
para que em mais nenhum tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.

Assim vivirias comigo enquanto eu existisse
e assim ficarias, entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.

(Ibu Hazm)

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fevereiro 09, 2005

ficções

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janeiro 06, 2005

Mar Novo

Profetas falsos vieram em teu nome
anjos errados disseram que tu eras
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras

Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho tranparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.

§

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desepero
nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

§

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

(Sophia de mello Breyner Andresen, Mar Novo)
Grata pela liberdade.

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dezembro 17, 2004

Para sentir seu leve peso

Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.

(Marina Colasanti, Um Espinho de Marfim e outras histórias)

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Porém Igualmente

É uma santa. Diziam os vizinhos. E D. Eulália apanhando.
É um anjo. Diziam os parentes. E D. Eulália sangrando.
Porém igualmente se surpreenderam na noite em que, mais bebado que de costume, o marido, depois de surrá-la, jogou-a pela janela, e D. Eulália rompeu em asas o voo de sua trajectória.

(Marina Colasanti, Um Espinho de Marfim e outras histórias)

Publicado por medusa em 12:06 PM | Comentários (1)

novembro 29, 2004

...

não fique triste
quando eu me apagar
faz parte da vida escura
veja o luar

veja a lua subindo
tomando o seu lugar
ondas de tristeza para apreciar

(Nitin Sawhney, Moonrise)

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novembro 27, 2004

expressão

so pra dizer que te amo
nem sempre encontro o melhor tempo
nem sempre escolho o melhor modo
devia ser como no cinema
a lingua inglesa fica sempre bem
nunca atraiçoa ninguém

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

so pra dizer que te amo
não porque este embaraço
que mais parece que só te estimo

e até no momento em que digo que não quero
e o que sinto por ti são coisas confusas
e até arece que estou a mentir
as palavras custam a sair
não digo o que estou a sentir
digo o contrario do que estou a sentir

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

e é tão dificil
dizer amor
é bem melhor
dize-lo a cantar

por isso esta noite fiz esta canção
para resolver o meu problema de expressão
pra ficar mais perto
bem mais de perto

(Clã, Afinidades)

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novembro 25, 2004

celan

Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

§

Quando a distante
prata, rondada
também pelo voo dos homens, sem
chegar entrava,
redonda,
e nos olhava com olhos de olhar:

então
a palavra dor era uma taça de onde
subia ao nosso encontro a palavra
alegra - subia,
subis e passava por nós, subia
até nós dois, sob
o telhado,
até à cama onde a noite,
mestra
dos nossos corpos, esperava silenciosa, o seu
fundo, negro como o coração, cheio
da manhã.

§

A arte paga o seu preço, o ser humano
não paga nenhum.
Vós sois pela liberdade da arte,
do ser humano
falais apenas sob
este
signo.
E afinal
existe em todos nós
o mesmo Deus, feio-
-belo,
e verdadeiro.

§

Com o vento pelas costas
morro e apago-me
na grande monção -
é então que verdadeiramente vivo.

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novembro 19, 2004

Cupido

Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu

Eu vi quando você me viu
Seus olhos buscaram nos meus
O mesmo pecado febril
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu

Quando você me viu...

(Maria Rita/ Letra de Claudio Lins)

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novembro 12, 2004

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

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Lista

Voltei a actualizar a lista.

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da Dobra

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Camões

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novembro 08, 2004

As Palavras que Pena

Como se pode ver, tenho mais um livro da Y.K. Centeno: As Palavras Que Pena. primeirissima edição de 1972. Este livro foi reeditado pela ASA na colectânea Três Histórias de Amor.


“Devagarinho as mãos foram deslizando pelo corpo. Está a tremer como um pássaro. Tem frio? Um pássaro ferido. Não tenha medo. Eu estou aqui. Eu fico consigo. Podemos ir para casa. Não diz nada? As mãos do rapaz instalaram-se na garganta de Vera. Como não dizia nada as mãos começaram a apertar devagarinho. Vamos obrigar as palavras a sair. Ajude-me. Faça as palavras sair enquanto eu as empurro. Vera deixou de tremer. Já não sentia medo. Apenas certeza. La mort, à tout jamais la Mort, maintenant. Ouviu de longe o ralo espesso que lhe saía da boca e parecia vir de outra boca de outra pessoas diferente. Está quase, disse o rapaz. Já oiço qualquer coisa. As mãos apertaram com mais força. Sempre a lua na árvore, acesa como um grito. Nunca ter desconfiado dela. Derrama derrama luz correndo em fonte rápida torrentes e torrentes de água lua rosto redondo debruçado uma mulher que ama olhos faróis acesos corpo astral ro-ta-ção-lu-mi-no-sa e
O rapaz largou-a de repente. Abanou a cabeça, contrariado. Que pena, murmurou. A lua retirou-se e a noite ficou mais uma vez sozinha e escura com o cadáver absurdo junto à árvore. O rapaz murmurou: que pena. As palavras saíram esborrachadas.”

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Tranquilidade

A tranquilidade ou apaziguamento que procuro escreve-se assim:

Ao leitor:

este romance foi escrito em 1967, e várias vezes relido e alterado à medida que o tempo ia passando sem que o publicassem (…) Chamaram-me a atenção para as citações que por vezes faço, em alemão, inglês e francês. Pôs-se a hipótese de serem traduzidas – para não afastar leitores (ou editores). Mas estão de tal modo integradas no texto, não só pelo conteúdo, que eu amplio, mas sobretudo pelo próprio ritmo das palavras, que neste romance é talvez ainda mais importante do que nos outros – que não tive coragem de proceder a tal alteração.
Traduzindo, o sentido não se perdia. Mas o movimento interior do texto ficava destruído. Optei por perder leitores (já que editor sempre houve um que finalmente se dispôs a arriscar). No entanto, para não ser acusada de má vontade ou pretenso hermetismo, proponho um meio termo: indicarei os autores que foram «integrados», pela ordem do seu aparecimento no romance. Esperando que o leitor venha a interessar-se por eles, se não os conhece já. E arei também uma versão dalgumas citações para que de facto o sentido não se perca totalmente.
Se disserem que assim transformo o livro mais em objecto de meditação do que em romance – não me ofendo com isso.

Y. K. Centeno, Lisboa, Março de 1972”

As Palavras que Pena, Lisboa, Edições Ática.

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outubro 15, 2004

Despedida prolongada

"Cuándo habían comenzado a despedirse? En la cama, cuando ella lo abraaza y le dice en un murmullo: "hoy necesitaba tanto de ser deseada..."?
O, cuando ella con las manos toca su rostro, aún mojado por la lluvia, le mira los ojos y le habla de su obsesión por lo ilimitado? Ella es el Verbo, la Fuerza, la Fuente que mana. El, tierra reseca que de ella y para ella vive.

No salen juntos, él se demora un tanto en pagar el cuarto, la deja ir adelante. Y durante los minutos que él está alejado de ella, todo pirde sentido: el abrir de la billetera, el hablar con el recepcionista, el poner una pierna delante de la otra en acto necesario para la salida de aquella casa donde todo acontece. L fuerza lo abandona. Mas, cuando la ve parada en la acera en su espera, siente que sus brazos sólo existen para abrazarla. Ella lo sabe y se lo dice con la mirada. la acompaña hasta el carro de ella y pide otro beso, poniendo el rostro junto a sus labios. En silencio. Ella comienza a perderse en un mar de ternura que la va sumergiendo. Vacila en entrar al carro, lo quiere acompañar a su carro de él, cien metros más adelante, pero tiene miedo de que él comience a llorar en medio de la vía, tan triste lo ve. le pone la mano en el brazo, leve toque de ternura. Un minuto más para despedirse - una eternidad hecha sufrimiento, sin intercambiar una palabra. E inesperadamente, él dice con voz baja, los ojos mirando al piso: "que Dios me dé fuerza". La empuja ligeramente hacia si y vuelve a murmurar: "que Dios me dé fuerza", cada vez mas perdido en su tristeza.

Todo en ellos es diferente: profesión, familia, vivencia la circunstancia, pero en ese momento sienten el mismo pánico por tener que separarse. "Que Dios nos dé fuerza", no es un pedido de ayuda, es un soliloquio de un desesperado que solo cree en la relación que construyeron. Lo ve doblar la esquina, de hombros caídos. Entra en el carro para hundirse en el llanto. De la nostalgia que ya siente, de la ternura que en ella no cabe. Por saberse prolongada en la falta que él le vá hacer. Él espera que ella arranque para verla una vez más. Pero ella no aparece, por eso él da marcha atrás, para ver lo que sucedió. Y la ve llorar dentro del carro, las manos cubriendo el rostro, las lágrimas contendo por entre los dedos. Ella no lo deja salir, le hace señas para que continue. El da la vuelta y vtine a colocarse a su lado, esperando que ella parta. No puede dejarla así, en medio de la ciudad. Sabe que ella está a la espera que él salga para darte la última caricia, la que haría todo aún más peligroso. Sabe lo que ella siente. Saben todo el uno del otro, porque cada uno se construyó a través del otro. Es así hace mucho, sin forzarlo, sin quererlo, basta con que no se nieguen, que existan apenas. A veces, ella le pregunta si todo no será una invención, si acaso no estarán construyendo un mundo de la realidad virtual. Es en la mirada de él que encuentra Ia respuesta: no es esa la realidad del que ama?

Saben tamblén que no se pueden volver a encontrar hoy, por cuanto lo imposible podría suceder: la ruptura con el mundo, los otros, la asunclón definitiva de las soledades que hace anos empezaran a moldear dentro de si. Soledades que podrian transfomarse en una sola, eliminando lo que les resta del Miedo. Lo que ninguno podría hacer solo. Por eso se aman como si todavia fuesen dos personas, se procuran y se huyen. Por eso, sus orgasmos no son simultâneos por cuanto quieren regalar al otro lo que de él es para que lo sienta como una ofrenda en la plenltud de su conciencla - de otro.

Cuando ella inicia la marcha, la sigue para hacer con ella una parte del camino, la parte inicial en que todo se juega. No la pasa, no la quiere ver, para no ver su propio sufrimiento. Le basta seguir en la mirada de los transeuntes con quienes se cruzar para saber que ella continua llorando - por ella, por él, por ellos tan violentamente partiéndose en dos. Y eso le da fuerza, la fuerza de quien la quiere proteger: no admite que nadie entre en su privacidad, que de ella se apiade o sospeche - pues seria entrar dentro del mundo que construyeron apenas para si. Si lo preservarán, estarán salvos.
Intenta no perderla en medio del tráfico. Mientras la tiene próximo, estará protegido de la tentación de este viaje sin retomo al mundo interior de la locura - en el que un dia se sumergirá. Vórtice y pavor. La Fuerza actuando en contra de si misma, en dinâmica de autodestrucción. Pero, no será esta nostalgia la puerta que se entreabre para el reino de la destrucción?

Cuando los caminos comienzan a apartarse él acelera, se coloca al lado de ella. Y es entonces que ve su sonrisa, solo para él, sin necesidad de mirarlo - esperanza resurgiendo al final de la tarde, al final de la vida de tanta tristeza. Por vía de él, por via de esta sonrlsa se recreará la presencia de ella, por todos estos dias en que no la verá, en que no escuchará su voz. La fuerza que ella le da también será su fuerza por que sabe que él la recibió. Milagro de la presencia en el Interior de la relación.
Pero, hasta cuándo, Dios mio, hasta cuándo serán ellos sus propios Dioses? Hasta cuándo tendrán que arrastrar la cruz de su propia deificación?

(Albano Estrela, O Tríptico da paixão e do tempo, Lisboa, 1995)

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setembro 27, 2004

Córazon Partió

Não consigo deixar de ouvir.
Tinhas razão.
E vem aí álbum novo.

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setembro 13, 2004

Adagio

John Tavener.

“Sir John Tavener, an erstwhile student at the royal Academy of Music, is one of contemporary music’s most distinctive and recognisable voices, writing deeply-felt compositions of instant magnetism and lyrical intensityinspired by a srong GreekOrthodox faith. A prolific composer of religious music, he hás a catalogue of Works including three Requiems and hás developed a very personal style that embraces his own concept of ‘melodic minimalism’ The composer’s profile rocketed when his sacred choral work, Song for Athene, was sung at the funeral ceremony of Princess Diana. The Lamb, one of his settings of poetry by Wiliam Blake, is one of his better-known Works. It might almost be described as a (secred) lullaby; written in one afternoon, it is dedicated to Tavener’s three-year-old nephew. Its deceptively simple melody drifts over waves of austere but exquisite harmonies, creating na ethereal soundworld that is unique to Tavener.”

The Lamb – John Tavener (Words by William Blake)u>


Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?
Gave thee life, and bid thee feed
By the stream and o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing, woolly, bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice?
Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?

Little Lamb, I’ll tell thee;
Little Lamb, I’ll tell thee:
He is called by thy name,
For he calls himself a Lamb.
He is meek, and he is mild;
He became a little child.
I, a child, and thou a lamb,
We are called by his name.
Little Lamb, God bless thee!
Little Lamb, God bless thee!

setembro 09, 2004

Gedicht

Finalmente, tenho este livro.
E afinal este poema está feito, pelo menos, desde 1997.

E ainda tem este:

"Desliguei a máquina
a vida
quis ser livre
e fui-o
e vou ser
quantas vezes eu quiser
de aqui em diante
desligo a máquina
a vida
e só a volto a ligar
quando me sentir inteira
e de cada vez
antes que me partam de novo
desligo a máquina
a vida
e só a volto a ligar
quando fizer sentido
de novo
a vida"

(Ana Viana)

Publicado por medusa em 04:13 PM | Comentários (0)

Heart Music

Heart-Music

(Espólio 77-84)

Leaning almost upon breast
I heard thy heart’s life – made unrest…

And thy heart’s beating hás a sound
That reminds me of aught I heard long ago,
Long before this life, but what
I do not know, I do not Know…
‘Twas something going round and round
Something of terrible and of strange
That even now doth shake my soul.
I strive to remember – I fail, I fail
The unmemoried memory doth shake my soul.
‘Twas something of terrible and of strange
Going round and going round,
And it had a sound like thy heart’s beat…
The memory hangs on my soul’s darkness
But notion from my mind doth fleet.
I remember but this: it went round and round
And now thy heart – hath such a round.

Alexander Search
December, 1905.

O poeta tinha 17 anos.

Como já tive ocasião de dizer, pegando nas palavras do próprio poeta, potencialmente, em sentido simbólico, somos todos adeptos. Somos todos peregrinos, caminhando no vale, aspirando à montanha …Toda a verdadeira iniciação se dá na alma. A alma é um templo, é o divino no homem. Para o divino no homem aponta o simbolismo hermético. E não confundamos divino com os deuses. Os deuses são de fora, pertencem às religiões. O divino é de dentro, só de dentro, pertence exclusivamente ao homem.”

Yvette Kace Centeno, Fernando pessoa, Magia e Fantasia, 2004, p. 45

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setembro 03, 2004

Sozinho

Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
o antes, o agora e o depois
por que você me deixa tão solto?
por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus segredos e planos secretos
só abro pra você mais ninguém
por que você me esquece e some?
e se eu me interessar por alguém?
e se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
é claro que a gente cuida
fala que me ama
só que é da boca pra fora
ou você me engana
ou não está madura
onde está você agora?

[Caetano Veloso]

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agosto 26, 2004

Intimidade (Ou Intimacia)

"Por isso tinha tanto medo. De se separar dele e de o mandar para o colégio.
Apesar de o deixar sozinho todas as noites. Mas isso era diferente.
Era como um pacto. E dava-se conta de que o interior de uma ligação
tão íntima é silencioso. Poderoso. Infinitamente seguro.
Como uma matéria orgânica."

Mafalda Ivo Cruz, A Casa do Diabo.

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agosto 18, 2004

A Oriente (II)

"Jazz em Agosto:
cantam as rãs
mirando-se no lago."

Yvette K. Centeno, A Oriente, 1998.

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A Oriente

"O que procuro?
O teu nome
Mas o teu nome secreto
aquele que não se encontra
nas letras do alfabeto."

Yvette K. Centeno, A Oriente, 1998.

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agosto 16, 2004

Bio

Biografia da Mafalda só por curiosidade.

Publicado por medusa em 04:47 PM | Comentários (0)

Feiticeira

FEITICEIRA


De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada

De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado

De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido

De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.

(Luis Represas)

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julho 30, 2004

Saudade

A saudade
é um trem de metrô
subterrâneo obscuro
escuro claro
é um trem de metrô
a saudade
é prego parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar
a saudade
é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido
(a saudade é um trem de...)
a saudade
é uma concha velha
que cobriu um dia
numa noite fria
nosso amor em brasa
a saudade
é brigitte bardot
acenando com a mão

[Zeca Baleiro, Brigitte Bardot]

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julho 19, 2004

Era uma vez uma maçã

(Yvette K. Centeno)

Era uma vez uma maçã: grande,
vermelha, luzidia.

O João pegou na maçã e deu-lhe uma dentada.
Da maçã sairam dois coelhinhos brancos que disseram ao João:
- Não estragues a nossa casinha.
Deste uma dentada no tecto.

E o João não engoliu o bocado da maçã
que tinha mordido.
Voltou a pô-lo no lugar.
- Vocês vivem aqui? - perguntou o João.
- Vivemos - disseram os coelhos.
- Esta maçã é a nossa casinha.

Posso brincar com vocês? - perguntou ainda o João.
- Claro que podes disseram os colehos.
Se és nosso amigo, se não nos fazes mal,
podes brincar à vontade. Olha, faz-te pequenino e vem
connosco para dentro da maçã.

- Não sei fazer-me pequeno - disse o João. - Ajudem-me.
- Fecha os olhos e pensa.

Assim foi. o João fechou os olhos,
pensou em si pequenino, e quando
os voltou a abrir já estava com os seus
amigos coelhos dentro da maçã.

Brincaram toda a tarde.
mas de repente o João lembrou-se:
- E agora, como é que posso voltar
para a minha casa, para os meus pais, para os meus irmãos,
sendo assim deste tamanho?

- Fecha os olhos e pensou outra vez - explicaram os coelhos.

Fechou os olhos, pensou em si grande como era antes
e quando os abriu já estava cá fora, com a maçã na mão
enquanto os dois coelhinhos lhe diziam adeus
lá de dentro.

O João levou a maçã para o seu quarto e escondeu-a
no fundo do armário para ninguém a ver.

Se alguém a visse poderia querer comê-la.
Por isso a escondeu bem escondida.
Para ter ali dosi colehinhos com quem brincar
à vontade, sempre que quisesse, sem ninguém
dar por isso.

Publicado por medusa em 04:58 PM | Comentários (2)

julho 13, 2004

Frida

Frida Kahlo morreu há 50 anos

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julho 08, 2004

Yvette K. Centeno (II)

Actualizei a lista de obras da Yvette Centeno, porque já tenho mais algumas
e porque decsobri que há mais umas tantas que não tenho.

Publicado por medusa em 05:56 PM | Comentários (0)

julho 06, 2004

Yvette K. Centeno

Vou deixar aqui uma listinha das obras que esta senhora publicou
(ou melhor, as que eu sei que publicou, excluindo artigos que considerarei apenas mais tarde).

Com um asterisco à frente vão assinaladas as que ainda me faltam
(por isso se alguém tiver notícias do paradeiro delas, agradeço que me avisem).

Fã que é fã, faz colecção!
[versão actualizada]

1961 — Opus, 1, Edições Ática *

1962 — Quem se eu gritar [Três histórias de Amor], Edições Ática *

1965 — O Barco na Cidade, Guimarães Editores *

1966 — Não só quem nos odeia [Três histórias de Amor] *

1967 — Poemas Fracturados, Guimarães Editores *

1968 — Pas seulement la haine, Ed. Mercure de France *

1972 — As Palavras que pena, Edições Ática [Três Histórias de Amor]

1974 — Irreflexões (e outros lugares-comuns) 1961-1971, Edições Ática

1974 — Teatro Aberto, Ed. Ática

1975 — 5 Aproximações, Ed. Ática

1976 — A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe, Ed. da UNL *

1977 — Sinais, Ed. O Oiro do Dia *

1978 — Símbolos da Totalidade na obra de Hermann Hesse, Ed. A Regra do Jogo *

1978 — Fernando Pessoa (Tempo, Solidão, Hermetismo), Moraes Ed. *

1979 — Algol, Ed. Oiro do Dia *

1980 — Saudades do Paraíso, Moraes Ed. *

1981 — A Viagem de “Os Lusíadas”: Símbolo e Mito, Ed. Arcádia *

1982 — A (Más)cara Diante da Cara, Ed. Presença

1982 — A Alquimia e o Fausto de Goethe, Ed. Arcádia *

1982 — Peças bem comportadas, Ed. e etc.

1982 - Miguel e o gigante, Bertrand*

1982 - Era uma vez uma maçã, Plátano*

1983 — O Jardim das Nogueiras [Os Jardins de Eva] *

198? — Fernando Pessoa: O Amor, A Morte, A Iniciação, Ed. A Regra do Jogo *

198? — Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Ed. Presença *

1984 — Perto da terra, Presença

1986 — As Muralhas [Os Jardins de Eva] *

1987 — Literatura e Alquimia, Presença

1987 - Tratado da Ennoea, de Anselmo Caetano

1988 - Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros ensaios, Presença

1988 — Matriz, Presença

1991 - A Arte de Jardinar, Presença

1991 - As Três Cidras do Amor, Cotovia*

1993 - Portugal: Mitos Revisitados

1994 — Três Histórias de Amor, Edições ASA, 1.ª Edição

1997 — Entre Silêncios, Pedra Formosa Edições

1998 — Os Jardins de Eva, Edições ASA, 1.ª Edição

1998 — Canções de um Rio Profundo, Edições ASA

1998 (?) - A Oriente

199(?) - Será Deus o Dr. Freud? *

199(?) - Sapatos e outros escritos cruéis *

199(?) - O Pecado original

19(??) - 64 Trigramas e outros poemas*

2004 - Fernando Pessoa: magia e fantasia, ASA

Publicado por medusa em 08:46 PM | Comentários (0)

Come to me




"Hoje vejo-me inteira
poiso os pés
na fenda do mundo
a mão
regressa ao corpo
e chama-te para dentro do prazer.

Hoje vejo-me rápida
triunfante
quando falamos
não do que é grave
e a lassisão invade,
suave, a pele
atónita feroz.

Deixemos as leituras
residuais
a luta esquiva
e mortal
nos algarismos da fala.
Sejamos
animais cintilantes.

Ficaremos
então
no espaço mínimo
da pele
e eu ver-me-ei
uma só vez
liberta de palavras."

(Nós/Nudos. 25 Poemas sobre 25 Obras de Paula Rego)

Publicado por medusa em 11:40 AM | Comentários (1)

junho 30, 2004

Everything [alanis]


i can be an asshole of the grandest kind
I can withhold like it's going out of style
I can be the moodiest baby and you've never met anyone
Who is as negative as I am sometimes

I am the wisest woman you've ever met
I am the kindest soul with whom you've connected
i have the bravest heart that you've ever seen and you've never met anyone
Who is as positive as I am sometimes

you see everything you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here

i blame everyone else & not my own partaking
my passive aggressive-ness can be devastating
I'm terrified and mistrusting and you've never met anyone
Who is as closed down as I am sometimes

you see everything you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here

What I resist persists and speaks louder than i know
What i resist you love no matter how low or high I go

I am the funniest woman that you've ever known
I am the dullest woman that you've ever known
I'm the most gorgeous woman that you've ever known and you've never met anyone
Who is as everything as I am sometimes

you see everything you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here

alanis

Publicado por medusa em 03:54 PM | Comentários (1)

junho 23, 2004

links

dois sitios interessantes:

Assírio & Alvim e O Sitio dos Haikais para conhecer a poesia japonesa.

(fascina-me cada vez mais a palavra, o verso, o texto, o livro, a edição - até a mal-amada revisão)

Publicado por medusa em 04:28 PM | Comentários (0)

junho 18, 2004

mariza

"...vielas de alfama
ruas da lisboa antiga
não há fado que não diga
coisas do vosso passado
vielas de alfama
beijadas pelo luar
quem me dera lá morar
p'ra viver
junto do fado..."

Publicado por medusa em 08:51 AM | Comentários (0)

junho 11, 2004

[Atentamente]

Agora mesmo,
este encontro tu e eu,
uma única vez através do tempo e do espaço.

Hôgen Yamahata, em "Folhas caem, um novo rebento"

Publicado por medusa em 08:13 PM | Comentários (0)

junho 04, 2004

Procuro

Publicado por medusa em 12:14 PM | Comentários (0)

junho 02, 2004

sweet

na tânia.

Publicado por medusa em 11:20 AM | Comentários (0)

maio 28, 2004

la mála educación

Um filme de homens.

“La mala educación” es una película muy íntima, pero no exactamente autobiográfica,
quiero decir que no cuento mi vida en el colegio ni mi aprendizaje durante los primeros
años de la “movida”, aunque éstas sean las dos épocas en que se desarrolla la trama
(el 64 y el 80, con un intervalo en el 77).
Por supuesto, mis recuerdos han sido importantes a la hora de escribir el guión,
al fin y al cabo he vivido en los escenarios y en las épocas en que
transcurre la misma.

Pedro Almodovar

Publicado por medusa em 04:50 PM | Comentários (0)

Ricardo Reis (Odes)

Faltava-me esta referência que me é tão cara e a cada dia mais necessária:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

(mais aqui.)

Publicado por medusa em 02:23 PM | Comentários (0)

As Cartas Portuguesas

A 4.ª Carta:

"... Bem vejo que te amo como uma louca.
No entanto, não me queixo de toda a violência
dos arrebatamentos do meu coração;
e vou-me acostumando às suas perseguições e não
poderia viver sem esse prazer que decsubro e que gozo
amando-te no meio de mil dores ...
... Sim, sinto escrúpulos se não te dou todos os momentos
da minha vida... "

A 5.ª Carta:

"... Só conheci bem o excesso do meu amor
quando quis fazer todos os esforços para me curar dele,
e receio que não tivesse ousado aventurar-me a essa
empresa se tivesse podido prover-lhe todas as dificuldades
e violências. Estou convencida de que teria experimentado sensações
menos desagradáveis amando-o, ingrato, embora, como é, do que
deixando-o para sempre. Tive então a prova de que lhe quero menos
do que à minha paixão, e suportei dores indescritíveis em a combater,
depois que a infâmia da sua maneira de proceder o tornaram odioso
aos meus olhos ..."

(Soror Mariana Alcoforado, diz-se)

Publicado por medusa em 02:06 PM | Comentários (0)

maio 26, 2004

variações

Como era mesmo a letra daquela música do variações?
"é pr'amanha, bem podias viver hoje
porque amanhã sei que voltas adiar
ai tu bem sabes como a vida foge
mesmo de quem diz que está p'ra durar...

foi mais um dia e tu nada viveste
um dia a mais tu pensas que não faz mal
quando pensares no tempo que perdeste
então tu queres mas é tarde demais..."

seria assim?

Publicado por medusa em 01:21 PM | Comentários (4)

maio 20, 2004

As 3 Marias em 1971


"... Pegando, por exemplo, numa linha: corpo de mulher, onde é sugado
e exausto o sexo duro do homem, sua breve participação na feitura do filho
- filho da riqueza, mão-de-obra, imortalidade em outro - corpo de mulher com
seu sangue e ciclos e que se rasga noutro corpo filho, mistério de vida e de
morte, escândalo de um corpo demasiado próximo da natureza que o homem
tenta dominar receando sempre suas vinganças, medo do corpo, corpo de
perdição, medo de castração nele, homem erecto e constructor mas a quem só
a mulher para os filhos, mulher marginalizada naquilo que o homem rejeita
nas suas escolhas pragmáticas, intuição feminina (a mulher tem artes, diz o
povo e Freud considerou-a, et pour cause, muito mais atenta do que
o homem, ao significado dos esquecimentos e actos ralhados), eterno feminino,
magia, bruxa, demoníaca, possessa, vampe (ah, mulher! que é para te comprar que eu trabalho
há séculos, e minhas leis, e tu sempre me foges), corpo que se
possui, terra do homem, carne da sua carne, costela de Adão, homem faz-se
mãe da mulher para a reorganizar nas suas origens, a partir do caos, mulher
poder de tentação e de pacto com a desordem, poder e escândalo, sentimento
de culpa do homem, sua crítica marginal, sua imagem negativa...
Vêm de longe os nossos medos, as nossas ditaduras e os retratos demiúrgicos dos nossos chefes.
Em toda esta linha que eu mal puxei, se ensopam e mitificam nossas políticas, nossas éticas,
nossos amores a dois.
Nossos amores a dois, onde os homens se nos chegam assim,
vindos daquela cavalgada,
em sua imagem social presente,
destrutivos, fazendo o vazio à sua volta, afirmando-se
sempre contra alguém ou alguma coisa, erectos não por si mas por força de ir
contra outro, sempre cegos e sempre sós no seu solilóquio perante nós, que
substitui, diálogo, connosco, impossível; seu vazio diz-nos «minha sombra de
nada», seu medo diz-nos «minha raiz de tudo»; e nesta carência, por seu
medo, é nova invasão que se prepara, «em ti me enxerto, eu cepa usada, lua
seiva sugo». Chegará tempo de amor, em que dois se amem sem que uso ou
utilidade mútua se vejam e procurem, mas apenas prazer, prazer.
Só no dar e no receber?"

(em 1971...)

Publicado por medusa em 06:52 PM | Comentários (0)

maio 19, 2004

Pós-modernos e o amor

Vieste comigo
Nesse jeito pós-moderno
De não querer saber nada
De não fazer perguntas
Essa pose cansada
Tão despida de emoção
De quem já viu tudo
E tudo é uma imensa repetição

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Quase já não conta

Depois quase ias embora
Desse modo
Evanescente
Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Já quase não conta

(Clã- ROSA CARNE)

Publicado por medusa em 01:02 PM | Comentários (0)

maio 18, 2004

Octavia Monaco

Publicado por medusa em 05:36 PM | Comentários (0)

maio 14, 2004

Clarice Lispector

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Publicado por medusa em 05:39 PM | Comentários (0)

Ainda Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia

Publicado por medusa em 05:38 PM | Comentários (0)

maio 11, 2004

Marina Colasanti II

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Publicado por medusa em 01:24 PM | Comentários (2)

maio 10, 2004

Marina Colasanti

Ás seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Publicado por medusa em 04:22 PM | Comentários (0)

Sophia

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Publicado por medusa em 04:14 PM | Comentários (0)

Ana Hatherly

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

Publicado por medusa em 01:23 PM | Comentários (0)

maio 06, 2004

dulce

aqui

Publicado por medusa em 04:02 PM | Comentários (0)

a narrativa

"... Vejo nos teus olhos aquele atrevimento alegre que passa com a juventude,
dando lugar a olhos tão melancólicos, embora esperançados, a gestos tão
hesitantes, que se percebe logo que a morte já está espreitando.
A juventude não conhece perigos. Ou se os conhece finge, e ignora,
sente-se forte, sente-se à altura deles, espera até que eles surjam,
daqui ou dacolá, para lhes fazer frente.
Olho para ti e não consigo ver como foi a tua infância.
Ou não tiveste infância? Tiveste por acaso uma mãe carinhosa?
Ou faltou-te essa experiência de um corpo mais profundo, onde podias
enterrar-te, como na lama, ou na areia, ou afundar-te como no mar,
afundar-te, preparando-te já para alguma inesperada morte,
porque é sempre de morte que se trata... de uma morte adiada.
A morte assume o rosto, o corpo, a forma da nossa mãe.
Por isso não deve assustar. A mãe que sai das trevas e conduz.
Ou tiveste, pelo contrário, um pai severo, ciumento, como são tantos pais,
inquietos com o amor que a mãe lhes dedica a eles e não devia ser
partilhado, devia ser só dos pais.
Um pai que te chicoteava às escondidas e te proibia de falar
e não gostava de te ver, hoje, com um tal penteado? ..."

(Yvette K. Centeno, O Pecado Original)

Publicado por medusa em 12:59 PM | Comentários (0)

maio 03, 2004

gostava de ter escrito assim:

"procurámos as palavras e não havia nenhuma
para dizer deste derramar sem sinal de cansaço
um lume a nascer por detrás do olhar
a sonhar-nos os dias
por dentro dos dias"

(mas ainda bem que há quem o faça... e partilhe)

[Ana Viana - Por dentro das palavras... o tempo]

Publicado por medusa em 01:31 PM | Comentários (0)

março 04, 2004

Ana Viana III

Não tenhas medo de sair de ti esse jorro de água fresca
nem tenhas medo desse turbilhão dentro das entranhas
nem do sabor a sangue na boca quando por ela te suplantas

Não tenhas medo de diluíres em ti os génios que digeres e que defecas

nem tenhas medo de ser oráculo de um deus que desconheces
nem de ser nascente de um rio que não controlas

Sê tu, gruta que suporta o peso da montanha
e que escava dentro de si o seu mistério
quardando os seus sons no teu silêncio
devolvendo-os transformados
na tua água


[por dentro das palavras... o tempo]

Publicado por medusa em 02:10 PM | Comentários (1)

fevereiro 18, 2004

Não vá embora [Marisa Monte]

E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida

Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo

Refrão:
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca maaaais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais

Eu podia estar sofrendo caído por aí
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não queeeero, não quero

Publicado por medusa em 08:12 PM | Comentários (2)

fevereiro 17, 2004

Love's divine [Seal]

Then the rainstorm came, over me
And I felt my spirit break
I had lost all of my, belief you see
And realize my mistake
But time through a prayer, to me
And all around me, it came still

I need love, loves divine
Please forgive me now I see that I've been blind
Give me love, loves is what I need to help me know my name

Through the rainstorm came, century
And I felt my spirit fly
I had felt, all of my, reality
I realize what it takes

'Cause I need love, love's divine
Please forgive me now I see that I've been blind
Give me love, loves is what I need to help me know my name

Oh I, don't bet (don't bet), don't bet (don't bet)
Show me how to live a promise me you won't forsake
'Cause love can help me know my name

Well I try to say there's nothing wrong
But inside felt that all in all
But the message here was plain to see
Believe:

'Cause I need love, love's divine
Please forgive me now I see that I've been blind
Give me love, loves is what I need to help me know my name

Oh I, don't bet (don't bet), don't bet (don't bet)
Show me how to live a promise me you won't forsake
'Cause love can help me know my name

Love can help me know my name.

Publicado por medusa em 07:43 PM | Comentários (1)

fevereiro 16, 2004

In my secret life

"In My Secret Life"--
"We all have a sense of a truth. The truth can be the most intimate conversation with one's heart about its desire and appetite. And when this conversation appears, it comes very close to the truth and a feeling of authenticity. But I don't imagine to have a metaphysic system without contradictions, and I don't think this is the poet's nor the songwriter's duty. In one of the songs I start by saying: 'I smile when I'm angry. / I cheat and I lie. / I do what I have to do / to get by. / But I know what is wrong. / And I know what is right. / And I'd die for the truth / In My Secret Life.' To be understood in the way that you can deceive everybody but yourself. This is the truth viewed in a simple, pragmatic and ordinary way, but it isn't the great truth of our existence. I can't control that."

Leonard Cohen

Publicado por medusa em 10:49 AM | Comentários (0)

fevereiro 12, 2004

Cada lugar teu

" ...
mesmo que a vida mude
os nossos sentidos
e o mundo nos leve para longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça
num gesto só

eu vou guardar
cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso
me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo
de naufragar
... "

(Mafalda Veiga)

Publicado por medusa em 11:52 AM | Comentários (1)

fevereiro 09, 2004

Song to the Siren [This Mortal Coil]

On the floating, shipless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."
Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning, broken lovelorn on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."

Publicado por medusa em 07:09 PM | Comentários (0)

janeiro 09, 2004

Ouvindo Jobim

"Madalena, o teu amor salvou-te"
O Amor é a única salvação

Se tu me amasses...
Não. Se eu te amasse, tu salvar-me-ias.
O meu amor por Ti salvar-me-ia.
Amar é a minha salvação.


"Sim
eu poderia fugir
meu amor
eu poderia partir
sem dizer para onde vou
nem se devo voltar

Sim
eu poderia morrer
de dor
eu poderia morrer
e me serenizar

Sim
eu poderia ficar
sem pensar
como uma casa vazia
uma casa escura
sem luz nem calor

Mas
quero as janelas abrir
para que o sol possa vir
iluminar o nosso amor"

Publicado por medusa em 12:17 PM | Comentários (0)

agosto 20, 2003

Das (Im)perfeições

O encontro (meu e agora teu) com a irónica nudez de Henry Miller:

"(...) Sorrio, porque todas as vezes que abordamos o assunto do livro que ele escreverá, um dia, as coisas assumem um aspecto incongruente. (...)
O livro terá de ser absolutamente original, absolutamente perfeito. É por isso, entre outras coisas, que lhe é impossível começá-lo. Assim que tem uma ideia começa a aprofundá-la, a pô-la em causa. Lembra-se que Dostoievski a utilizou, ou Hamsun, ou outro qualquer. «Não quero dizer que pretendo ser melhor do que eles, mas pretendo ser diferente», explica. E por isso, em vez de tratar de escrever o seu livro, lê um autor após outro a fim de ter a certeza absoluta de que não meterá foice em seara alheia. E quanto mais lê, mais desdenhoso se torna. Nenhum deles o satisfaz. Nenhum deles alcança o grau de perfeição que impôs a si próprio. E, esquecendo por completo que não escreveu nem um capítulo, fala deles condescendentemente, como se existisse uma prateleira cheia de livros com o seu nome, livros com os quais todos estão familiarizados e cujos títulos é, portanto, supérfluo mencionar."

Trópico de Câncer

Publicado por medusa em 11:30 PM | Comentários (1)

agosto 17, 2003

Do anjo...

Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens
dos anjos? E mesmo que um me apertasse
de repende contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha destruir-nos.
(...)

R. M. Rilke (As Elegias de Duíno | Primeiros versos da primeira elegia)

Publicado por medusa em 10:50 PM | Comentários (1)

agosto 08, 2003

António Cícero

"Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras

sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos esconsos
em primeiríssimo.

Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho enviesado
e rosto e corpo entre muitos corpos,
um dos quais o dela. A mesma lâmina
decapitou-a também: do lado
de cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado.Mas nada é tão simples. Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Dizem que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água. "

António Cícero

Publicado por medusa em 10:05 PM | Comentários (0)

junho 28, 2003

Fresh poetry


CANTIGA

Verdes são os campos
Da cor do limão:
Assi são os olhos
Do meu coração.


VOLTAS

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes;
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados, que pasceis,
Com contentamento
Vosso mantimento
Não no entendeis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

(remember Camões!)

Publicado por medusa em 12:00 AM | Comentários (0)

junho 27, 2003

Y. K. Centeno

por mais que se procure
nunca se chega ao outro
não há saída do eu

(Y. K. Centeno, in Perto da Terra)

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junho 22, 2003

Angel Song

This is me with another nervous breakdown
My pressure dropped, this body went with it
Memory fails, I´m feeling claustrophobic
I scream my silent pain in this big plain
There´s no one here tell me who is there now
Who is there with you

I´m taking no calls unless it´s her voice
I´m seeing no one unless it´s her
I open the mailbox every hour
Maybe I´ll hit the postman
I want to hear some love words
But not in that dyslexic voice
No I won´t tear apart for you
But I was given no choice

I guess I was trying to keep me alive
But once I was dead there´s was nothing to do beside
picking me up and lying me down
Waiting for some angel
To wake me and say to me:

"hello. don´t be scared. I want you to know, you´re not dead."

kiss me, is this a dream?
Should I believe it?
Please promise to me that I´m not going to get hurt this time

Am I too good for you, am I just paranoid?
Should I get clinical or should I speak louder?
Maybe I should close my eyes for years
And wait for the strongest feeling
out of all the feelings
to raise
from
you.


I guess I was trying to keep me alive
But once I was dead there´s was nothing to do beside
picking me up and lying me down
Waiting for some angel
To wake me and say to me:
"hello. don´t be scared. I want you to know, you´re not dead."

kiss me, is this a dream?
Should I believe it?
Please promise to me that I´m not going to get hurt this time

Am I real? are you real? is this real? What´s real?
Am I real? are you real? is this real?
Tell me, what´s real?

(obrigada )

Publicado por medusa em 01:04 PM | Comentários (0)

junho 21, 2003

Sons

Teimoso subi
Ao cimo de mim
E no alto rasgei
As voltas que dei

Sombra de mil sóis em glória
Cobrem todo o vale ao fundo
Dorme meu pequeno mundo

Como um barco vazio
P´las margens do rio
Desce o denso véu lilás
Desce em silêncio e paz
Manso e macio

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

Não fales calei
Assim fiquei
Sombra de mil sóis cansados
Crescendo como dedos finos
A embalar nossos destinos

Deixa que te leve
assim tão leve
Leve e que te beije meu anjo triste
Deixo-te o meu canto canção tão breve
Brando como tu amor pediste

(enquanto ouvia Paulo Gonzo e segundo ideia de Uazou)

Publicado por medusa em 01:57 PM | Comentários (0)

junho 20, 2003

Mário de Sá-Carneiro

"A queda"

E eu que sou o rei de toda esta incoerência
eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
e giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.
Se acaso em minhas mãos fica um pedaço d'oiro
volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
eu morro de desdém em frente de um tesouro,
Morro à míngua, de excesso
Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços d'alma- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me da sombra- em nada me condenso
agonias de luz eu vibro ainda no entanto.
Não me pude vencer, mas posso esmagar-me,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar-
e como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso....
Tombei...
E fico só esmagado sobre mim...

(obrigada Marta)

Publicado por medusa em 09:56 PM | Comentários (0)

junho 17, 2003

Al Berto


Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia.
Sentas-te e debruças-te para o caderno de capa preta. O silêncio arde por toda a casa. Abres o caderno onde sepultaste, há dias, umas quantas palavras. E ao abri-lo caem as imagens sobre a mesa. O acderno volta a ficar branco – o caderno, a nocturna memória do mundo, da vida. Tudo a branco como a morte.
Nenhum corpo cresce, nenhuma sílaba ficou esquecia no papel, nenhum eco do coração.
Sentado, como se estivesse sentado sobre o mar, escutas o lento bater nos confins dos ossos. Mas já nada tremula na luminosidade plúmbea do dia. Nada se acende, ou apaga, nos céus.

O dia afoga-se, lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar teu corpo.
A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa po entre os dedos. Areia rápoda e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência – a tua – é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos…
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.

Páras de escrever. Recostas-te na cadeira e murmuras: da paixão ficou o estremecimento da terra nos teus dentes, e a sombra de um nome rasgando o crepúsculo.
Fechas as pálpebras. O canto ergue-se nítido, sobe ao encontro da boca.
A teu lado está o morto. Inerte e desprotegido – dentro do poema que há-de vir.
Tocas-lhe, como se ainda se escoasse vida no seu sangue. Mas no cimo da penunbrsa montanha inicia-se o degelo. Abres os olhos, pousas a mão no papel, escreves.

Tocar a luz, qualquer luz, não consegue ressuscitar nada. Sílaba a sílaba tudo continua imóvel. Mesmo quando as palavras se agitam e são voláteis, cortam a respiração – ou quando são vegetais e largam um fio de seiva quente na língua.
Porque é do silêncio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema.

A febre desperta o desejo. Uma asa do anjo incadeia-se, desprende-se do corpo – estilhaça-se no éter da paisagem.
A pouco e pouco, acordas. Ouves o assustador rumor das águas e dos astros. O calor sufoca-te.
Continuas a não pressentir o fim do corpo. Anotas: falo da última morte para melhor celebrar a vida.

O dia esvai-se quando, nos céus, se enchem de fogo os olhos vazios da noite.
Vem uma tristeza escura coalhar-te nos lábios. Repetes as palavras que ambos conhecemos. A cinza da asa incendiada flutua, por fim, em cima da folha do caderno – e a mão percorre a memória deste corpo. Mancha o papel.

O tempo, longe daqui – onde passam os comboios – já te esqueceu. O cansaço devassa-te. Lá fora os cães ladram, onde ainda há mundo.
Mas o mundo foi assaltado. Dele roubaste o que restava de ti. Nenhuma emoção, nenhum sentimento, te pode perturbar.
O mar apagou os teus passos. Sabes que é difícil viver sem um rastro. Mas o Poeta não necessita de um biógrafo, ou de um amante, nem de morrer violentamente – para que se perturbe o canto do homem.

O viajante que foste espreita por trás da máscara, sorri, prossegue caminho. Afasta-se com o sangue do anjo nos lábios.

(In O Anjo Mudo)

Publicado por medusa em 09:57 PM | Comentários (0)

junho 12, 2003

Anaïs Nïn


A minha primeira visão da terra foi através da água.
Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são da água.

(In A Casa do Incesto)

Publicado por medusa em 10:20 PM | Comentários (0)

junho 06, 2003

Ana Viana (II)

A tua ternura desperta em mim
o desejo de te ter e de te dar
uma noite toda amor
onde os corpos despertos
pela alma
se possam desvelar
- festa de cheiros e sabor

uma noite destas
meu amor

(in Passagens Sublinhadas)

Publicado por medusa em 09:05 PM | Comentários (0)

maio 24, 2003

Paul Celan

Salmo

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
Ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de t queremos
Florir.
Em direcção
a ti.

Um Nada
Fomos, somos, continuaremos
A ser, florescendo:
A rosa do Nada, a
De Ninguém.

Com
O estilete claro-de-alma,
O estamo ermo-de-céu,
A corola vermelha
Da purpúrea palavra que cantámos
Sobre, oh sobre
O espinho.

(in Sete Rosas Mais Tarde)

Publicado por medusa em 12:33 PM | Comentários (0)

maio 20, 2003

Baudelaire

Não há obra longa a não ser a que não ousamos começar. Ela torna-se pesadelo.

Publicado por medusa em 09:11 PM | Comentários (0)

R. M. Rilke

R. M. Rilke

"A saudade"

A saudade é isto: viver nas ondas
e não ter pátria no tempo.
E desejos são isto: diálogos baixo
de horas diárias com a eternidade

e a vida é isto: até que de um ontem
surge a mais solitária das horas
que, sorrindo diferente das outras irmãs,
vai calada ao encontro do eterno

Publicado por medusa em 12:21 AM | Comentários (0)

maio 18, 2003

Y. K. Centeno

pelo nome se concebe
pelo nome se conhece
pelo nome
o que é oculto
aparece

Publicado por medusa em 11:49 PM | Comentários (0)

maio 17, 2003

Ana Viana

Triste, meu amor, triste

Na minha frente uma cadeira vazia
habitada pela tua ausência
presença invisível
metáfora de nós

(in Passagens Sublinhadas)

Publicado por medusa em 11:10 PM | Comentários (0)