Flutuar contigo
Num mar tranquilo
Pernas e braços abertos em teia
Sob o calor vermelho de excesso
E a certeza de ser sempre a tua mão na minha
E sermos jangada de músculo.
Parabéns "menina dos olhos de gata"!
Vendo assim a fotografia é que percebo há quanto tempo nos acompanhamos.
... mas este blog está a precisar de levar uma volta!
Pela manhã
Apago as memórias
Visto de novo a armadura
Vinda do fundo do baú
Desta vez mais justa
Desta vez mais forte
E nunca mais
Saio na urgência
Oiço as histórias de ninguém
E persisto em caminhar no limite amargo
Da beira do instinto
Vincando no corpo
Nunca mais
Nunca mais assim.
ausência tua
para dizer deste meu esbracejar sem graça
porque em cada movimento meu
são ausentes
os braços teus
razão do meu gesto
meu andamento
ausência tua
imensa
para dizer deste meu desalento
quando todos os sons que me chegam são ruído
se não houver a voz tua
a embalar-me as horas
ausência tua
agora que já não há promessas
e me sufoca
a minha ausência do mundo
brincas sozinha na areia
enquanto o jovem morre no mar
filho de pescadores
brincas na areia
e o sol é demasiado forte
para ti
queima-te a pele
brincas sozinha
e todos os bichos se escondem
enquanto remexes sozinha na areia e te contas histórias
de um ninho
de um leito
e te contas histórias
e ouves as tuas histórias
e ninguém
sai das tuas histórias
para brincar contigo
sozinha na areia
os pés descalços
marcam a praia
enterraste a boneca
e só a cabeça de fora
o cabelo seco
o teu cabelo seco
a boneca não te vê
não te conta histórias
sal da praia
a boneca faz-se velha
e um caranguejo morto
na tua mão
conta-lhe histórias
do teu futuro
para o esqueceres
antes que aconteça
e te destrua
sacudida a existência
vê-te do lado de fora da narrativa
o sentido do avesso
a razão desfigurada
gasta inútil
do lado de fora
sentes o frio de não ter história
e falas uma lingua incompreensível
do lado de fora da narrativa
podes rir sem vontade
sempre do lado de fora
sem teias ou performance
sem máscara
a medula exposta
e sempre o choque
de viver do lado de fora da narrativa
no avesso do corpo
à procura de outros motivos
mais teus
mais de dentro
impossíveis
assim
no lado de fora
e vês coisas
e sabes coisas
e não sabes
e ninguém te vê
porque estás
do lado de fora
da tua narrativa
Tive este pensamento: eu tenho uma esquizofrenia e tenho uma alucinação. E essa alucinação é a minha existência. A minha existência é uma alucinação minha. Tão somente.
Posso segurar nela, sacudi-la e pendurá-la num cabide.
Depois, posso olhar para ela. Mirá-la do lado de fora.
Aprumá-la. Ajeitá-la.
E, se o tempo for aprazível, vesti-la de quando em vez.
E passear-me com ela por aí. Envaidecida.
Olha para mim
no fundo dos meus olhos
e diz-me:
tens medo?
Ou nada?
Cerejas vermelhas
carnudas e doces
o caroço duro, fechado
que não se prova
Tudo tem de ser mudado. A decoração, o papel das paredes, o lugar dos móveis.
Tudo.
Morremos. Assim.
Sem sintoma.
Tinha sempre medo de te ver no escuro.
Medo de que me não me reconhecesses.
O mundo está cheio de sombras.
De lugares incertos.
Na missa. Olhavas o chão de mármore. Com o mesmo olhar. O mesmo olhar.
Nunca entrei nos teus olhos.
O mesmo olhar com que.
Terror.
Tudo tem de ser mudado.
Não mais os mesmos gestos.
Não mais as mesmas insignificantes abstracções.
Ou as inseguranças de quando as mãos vacilam.
Eu não sei como és. No fundo.
Nem dizer quem tu és.
Por dentro, não te conheço. E vejo sempre surpresa no teu passo.
Quando choravas.
Por vezes choravas.
Como sempre.
Um requiem ou um brinquedo. E o mistério dos teus olhos em água.
E eu nadei nos teus olhos.
Não me afoguei. Nunca.
O mesmo medo de quando abria a janela do meu quarto e via um céu imenso.
Fixo e denso. Com pontos brilhantes.
E sabia que estavam fixos.
E sabia.
E era impossível que estivessem fixos.
Maiores.
Maiores do que tudo.
E tinha medo.
Sentia uma tristeza tão pura.
Como quando nadava nos teus olhos em água.
Talvez
que nunca mais te veja
Sorrir
Talvez que nunca mais de ti haja
Notícia
E o meu mundo siga
Igual
Repetido.
Talvez que eu nunca mais traga
Alegria
Ou que nunca mais haja
Motivo
Na minha razão
Eu sei
Que te encontrei
E que só tu
És
A minha completude
Banal completude
Talvez
que a mim te devolvas
A mim
Que sou tua
Não por escolha
Mas por traço
Talvez que alguém nos tenha cruzado
Em linhas
Que se não vêem.
Nitidamente sei
Evidência
Que és
No meu palco
Completude.
E o meu mundo
Seguirá
Igual
Sem ti
Repetido.
I always knew
But only today
Have I realised
I’m just not like all the other girls
I’m just not pretty you know?
‘ve nerver been
But then
It’s ok
I could be special
But I’m not
Comme tout le monde
You know?
Ninguém é
Assim, sem mais nem menos
Perphaps you are
I’m sure you are
Maybe there’s just no reason
In all of this
C’est tout une fiction
Mais porquoi?
Ich weiss das nicht
C’est tout une histoire
Repetida
Gasta
And still I wonder why
Am I real?
Narrativas que oiço
E eu não
Comme une histoire
But am I real?
For you?
Comme you pierre
Comme quelque chose gros
Très gros
Can you touch it?
Something real
Entre todas as narrativas
E eu não.
I know
You hate me
I always knew
J’ai pas oublié ça
Sometimes I wake up
And there you are
And your words
Your poisoned words
And nothing new
Toujours une repetition
I’m not pretty you know?
Not like all the other girls
Não me revejo
E ainda me causa espanto
O meu rosto repetido
No espelho
Dá-me a mão
Can you?
Just for a moment
I promise
I won’t hurt you
I’m heavy you know
Aber du
Du bist so schön
Queda te aqui…
I know
Don’t say it
Deapply in your thoughts
You know
I can’t save you
I wished
I could
Conta-me
Tus sueños
Dit-moi
Qu’est-ce que tu veut?
Who you really are?
Give me your hand
Il y aura un jour
Oder vielleicht eine nacht
Et tu me quitteras
Et sera comme ça
Cambiaras
Y seguiras adellante
Je suis comme tout le monde
But people keep telling me things
I haven’t questioned
Exquisit things
That’s what I like
You can’t have it, you know?
E esta inadequação
Vá
Dá-me a mão
Não te prometo nada
What do we all need?
To be taken care of.
I’m sure about that
I’m dialling your number right now
Wird thing about numbers
I know yours by heart
Depuis long temps
É normal
E não é nada
Vá
Esquece
Foi só um desabafo
Du bist so schön.
Quisera
Irmã fazer meus
teus cuidados
esqueceram-se de ti
no fundo de uma arca
e ninguém te procurava
e ninguém te amava
e ninguém.
Ainda ontem te vi
Sorrir
Irmã
E ninguém.
Não te vi.
Irmã
Onde estás
velarás por mim?
Quando deste a tua vida e foste mártir
Saberias tu porque razão?
Ter-te-ão os anjos dito?
Tê-lo-ás suportado?
Irmã
O mundo é hostil
Sabes bem
Que somos frágeis
E erramos
Erramos muito
Irmã
Onde estiveres
Vela por mim
Terás acaso quem te abra as portas do céu
Onde reinarás com a tua dor
Nasceste e foste mãe
Agora por ti todos se exaltam
Tão frágil
Eras tu
E sempre
À tua volta
Violência
Irmã
Tão triste
É o mundo
Que segue sem ti
Acaso alguém te salvou?
Alguém te carregou nos braços
E aninhou no colo
O mundo não tem colo Irmã
O mundo não tem braços
Irmã
Onde estiveres
Vela por mim.
Largo do Rato.
11h40
Há anos que não se passaram aqui. Anos que não passei por aqui.
Paragem do 38, para chegar à Avenida Infante Santo.
Uma reunião. Estou atrasada.
Há movimento, há nuvens, há muitos pombos exaltados, agitados, inquietos.
Esvoaçar, roçar de penas negras. Há casas antigas. Há estradas curvas, passagens rápidas, que ultrapassam obstáculos.
Aceleram.
Espero o 38 ou o 20.
Chega mais gente à paragem. Gente. Caras e roupas. Não conheço.
Painel electrónico: 18 minutos para a passagem do próximo 38.
É muito tempo. Impaciento-me e a mulher ao meu lado que tem olhos azuis e um risco azul nos olhos e por isso reparei nela, além de ter o cabelo muito preto e uma saia comprida e rodada e um avental comprido e rodado, a mulher morde os lábios e sopra para extravasar baixinho a angústia de estar ali, detida na paragem à espera.
Eu tenho uma reunião. Estão à minha espera no Ministério. Tenho de me acelerar para chegar à reunião e depois acelerar a reunião para voltar e ir trabalhar e dizer desculpa mas agora não posso falamos mais logo depois regressar a casa e trabalhar num relatório e dizer mas afinal ligaste-me para que em concreto?
A mulher impacienta-se e não tem uma reunião. Tem uma vida qualquer à espera.
Os pombos desapareceram. Está a chover. Não tinha reparado que estava a chover mas o céu estava realmente cinzento. Não vi.
Painel electrónico: 21 minutos.
O tempo está a correr ao contrário. O painel deveria ir reduzindo o número e não aumentá-lo e eu até preferia não saber quanto tempo teria de esperar porque 21 minutos é muito tempo e eu tenho uma reunião e depois trabalho e depois relatório e depois vai aparecer muita gente e é preciso dizer não agora não posso.
Movimento. Semáforos.
Verde!
Acelerador!
Há estradas que são como passagens aéreas que voam sobre as nossas cabeças. Há estradas que dançam à minha volta.
Há casas antigas amarelas e cor de rosa.
Há uma casa de que gosto em particular. Uma casa cor de rosa, equilibrada no verde das janelas e das portas. Uma casa antiga, com estores verdes. Uma casa velha com uma varanda de ferro, pintada de verde.
Tantos anos sem passar por aqui, tantos anos que aqui se não passaram e de repente assisto-me a tomar este cenário como referência: para chegar ao Ministério, para chegar ao Chiado, para encontrar a Rosa, para chegar ao Marquês de Pombal.
E o Largo do Rato tem esta centralidade e depois tem aquelas referências como a Pastelaria e a Papelaria e aquela café que tem um toldo enorme a dizer “Café a 0.25 €” e eu penso que o café deve ter intragável e não tenho coragem de lá entrar e depois como é que eu diria olhe eu vim cá mas é só porque o café é mais barato e não me agrada nada a ideia.
Mas gosto daquela casa cor de rosa porque na varanda tem sempre, mas sempre, um homem a espreitar. Aliás, tem sempre um homem na varanda, um velho a ver.
E vejo-o sempre mas nunca lhe dei bom dia porque ele não me vê e também não lhe daria bom dia porque afinal ele não me conhece. Mas sempre que passo no Largo do rato ele está na varanda e faz-me companhia enquanto espero pelo 38.
Hoje não veio, o velho da varanda. Claro, está a chover.
Painel electrónico: 15 minutos. Pode ser que o 20 chegue antes.
O 20 não tem informação no painel electrónico. É assim um autocarro inesperado. Surge quando menos se espera. E demora a surgir.
Tento ler. A obra de Fernando Pessoa. O espólio. A obra não divulgada. Os segredos da arca. Fernando Pessoa iniciado, Fernando Pessoa místico e alquimista e maçon e templário e militante da ordem de Cristo e messiânico e sebastianista e o Bandarra até dizia que no ano de 1888 se daria um grande acontecimento a nível nacional mas que pela dimensão passaria despercebido e ele até nasceu e até foi no dia de santo António e tinha muitos livros sobre rosicrucianismo e kabala e magia e astrologia esotérica e teologiae mediunidade. Sabe-se isto porque andaram a ver as facturas do homem.
Não consigo ler mais porque estou impaciente e porque a paragem está cheia e quando viro a folha ela ameaça rasgar-se na camisola da mulher que está à minha frente. Não se respeita a leitura nas paragens nem nos autocarros. Não há lugares reservados para que trás um livro. Mas como é que se pode ler em pé, quando temos de nos segurar e deixar passar as pessoas e encolher e as pessoas encostam-se e não dá.
Levanto os olhos para ver o céu que no Lago do Rato é maior do que no resto da cidade e é mais perto e vejo que a chuva parou e o velho está exactamente neste momento a abrir a janela alta e sai para a varanda.
Ao mesmo tempo, na casa ao lado, há uma criatura que abre os cortinados de uma janela fechada e surge como um fantasma.
O velho tem uma bengala de madeira e chega-se junto ao ferro da varanda e olha para baixo. Espeta o nariz na direcção do chão. Eu imaginava-o a sair e a abrir os braços e os olhos e os pulmões para olhar em frente e ver o Largo todo e o movimento e aquele céu azul, com nuvens. Mas não. Talvez isso o assuste. Muito céu pode assustar. Como quando respiramos fundo. Talvez os pulmões do velho não estejam preparados para respirar fundo. E lá está ele, o velho que está sempre ali e olha de cima para baixo as pessoas que passam na rua por baixo da varanda da sua casa. Do sítio onde vive quando não está na varanda. O velho vê as pessoas de cima para baixo, vê cabeças e pés alternados e as pessoas estão sempre a andar e não param e quando param para ver uma montra continuam a andar e os carros passam e os autocarros param engolem umas pessoas, cospem outras e seguem, como bichos organizados numa ordem superior e seguem apenas seguem continuam vivem e não param. As pessoas não sabem que o velho está lá em cima e eu pergunto-me como será olhar para a varanda de baixo para cima e ver a cara do velho recortada contra o céu como se ele fosse deus disfarçado numa nuvem a ver tudo o que se passa cá em baixo. Como quando eu era miúda e imaginava que era um pinipon e que comigo deus fazia o mesmo que eu fazia com os meus bonecos. Organizava-os. Vigiava-os. E nós tínhamos uns fios invisíveis que deus ia puxando como queria. Mas sempre achei que o fazia para tomar conta de nós e não para brincar. Embora às vezes me irritasse pensar que não era a minha vontade mas antes um fio que deus estava para ali a puxar. E se ele se enganasse? Ou se o fio se partisse?
Nunca tive coragem de olhar para o velho de baixo para cima. Podia dizer-lhe adeus, mas acho que ele não me responderia. Provavelmente nem me veria a dizer-lhe adeus a ele. Veria apenas que um pinipon estava a fazer adeus a um velho numa varanda e que isso era mesmo assim porque aquela gente toda se mexe e anda e vive e continua e segue e não pára. As pessoas passam porque o velho vive, disso eu sei. Pergunto-me o que moverá aquele velho, como me pergunto em relação a todas as pessoas, mas parece que no caso dele isso não é importante, ele move-se porque há aquele movimento cá em baixo e ele vive nesse movimento. Quando ele morrer, o Lago do Rato ficará estático, como se tivesse congelado.
Painel electrónico: 6 minutos.
Está quase mas agora até podia demorar mais. Vou ter de me despedir do velho.
Não gosto dele. Não o conheço. É só mais um velho, como o outro fantasma que aparece de modo intermitente. Talvez tenha medo do movimento. Talvez tenha medo de ser visto, como se isso o obrigasse a ser qualquer coisa e ele não estivesse preparado.
Os pombos estão mais agitados depois da chuva e esvoaçam junto à casa. Alguns tentam pousar na varanda e no telhado, como se o velho ali não estivesse. Não lhe perguntam: posso? Importa-se? Nem lhe dão bons dias nem dizem: então, como está? Afinal, também eles estão ali a ver o movimento, de cima para baixo.
O velho tem uma cadeia no lado de dentro da casa, junto à porta da varanda. Deve ficar ali, à espera que a chuva passe. A casa é frágil, como ele e aposto que aquelas paredes choram todas as noites. Não sei se recebe visitas, nem de que é que se ocupa quando não está a vigiar o movimento. Nem o que pensa durante a noite antes de adormecer. Mas certamente não pensará muito, as memórias são um líquido espesso no cérebro. Dificultam o raciocínio. Dificultam o presente. Á noite o velho deve ouvir o movimento dos carros. Deve ver as luzes dos carros e das ruas. E acompanha assim o passar das horas. O velho viveu uma vida preso aos fios de deus e agora não sei que ordem ele encontra no largo do Rato, ele que é deus quando olha de cima para baixo. Ele que deve ver todos os fios.
O velho está agitado. Tenta sacudir os pombos com a bengala.
Os pombos não desistem, são inconvenientes, ocupando um espaço para o qual ninguém os convidou.
Os pombos de bico preto e asas e penas que caiem e esvoaçam assustam-me. Não gosto de pássaros nem daquele olhar deles, sempre a olhar de lado, sempre à espera, sempre atentos e ao mesmo tempo ignoram-nos e calam-se e não dizem nada. Mas eles sabem. Eles sabem que há mistérios incompreensíveis. E calam-nos. Os sacanas dos pombos sabem mais do que nós. Vivem mais tranquilos e atormentam-nos. Pousam no telhado mas também são capazes de andar pelo chão a debicar migalhas e restos e lixo. É isso que os torna pouco dignos de confiança. Ficam lá em cima, recortados contra os ceus, e voam como se fossem altivos mas também são capazes de andar junto ao esgoto. Não têm carácter os pombos. Solidarizo-me com o homem que espanta os pombos. Xo, pássaro estúpido não nos importunes. Um pombo teve a lata de se sentar exactamente em cima do candeeiro mais alto. Ali especado. A vigiar. A ver tudo o que se passa para depois ir contar aos outros. Cínicos os pombos de Lisboa. Devem rir-se de nós. Da nossa desgraça.
O velho está realmente perturbado com os pombos. Mas agora estam o velho e os pombos a vigiar quem passa. É frágil o velho. Tão frágil que me comove. É frágil como uma criança. Ou melhor, é frágil como um velho. Porque a criança não tenta compreender os mistérios. É frágil este velho. Pode desfazer-se em qualquer instante. Talvez seja por isso que não olha em frente, nem para o céu. Ou talvez o faça, às escondidas, num instante em que se sinta mais seguro e possa levantar a cabeça e erguer o queixo e desviar o olhar das criaturas que passam. Maroto o velho assim de nariz espetado na direcção de sabe-se lá o que, sem ver o que está em baixo, sem vertigens, sem ver nada, só o céu, só o nada. Talvez deus o visse lá de uma nuvem, ou talvez deus estivesse mesmo ali no telhado e talvez deus lhe sorrisse. E talvez fossem amigos e se falassem e conversassem sobre o movimento e a ordem do movimento. Frágil o velho que baixa a cabeça e vê o movimento. Vigia-o, não pode deixá-lo sossegado. Vê coisas e se alguém o visitar tem coisas para contar: hoje, um miúdo… eu vi… eu sei… Frágil o velho. Fala de uma realidade que não é dele. Ninguém o compreende.
Chegou o 20. Finalmente. E a reunião está à espera.
para proteger
é preciso ferir também
passo a mão pela bainha da saia
por cima dos joelhos bem juntos
é branca a saia e bordada de azul, em flores pequeninas junto à bainha
com um folho por baixo
(eu visto calças justas e estico as pernas para parecerem maiores
e eu ao cimo delas mais alta mais longe)
os sapatos são de pele e não tem salto
sinto o chão por onde passo e caminho silenciosamente
movendo-me entre salas e quartos e fundos e entradas da casa
(eu uso botas altas com saltos altos para me sentir acima do chão
e olhar para baixo e sentir que há alguma coisa que se pisa e não se sente
sequer o que é. se um bicho morrer sob os meus pés só ouço a carapaça estalar)
as minhas pernas são brancas e quando me sento fecho as pernas
encosto os joelhos
sinto as minhas pernas tocarem-se e há nisso qualquer coisa que me assusta
(eu afasto as pernas e cerco-te nelas prendo-te nas minhas pernas musculos quentes)
caminho até à janela do piso de cima
e gosto quando algum magala me sorri
e coro quando algum se atreve a prever a subida das minhas pernas brancas
(eu escolho os homens com s quais me deito
e misturo as minhas pernas nas pernas deles e há nisso qualquer repetição)
quando coro mexo no cabelo
comprido e castanho em anéis soltos que seguro com ganchos pequenos
cada gancho segura o cabelo para que ela não esvoace
nem me caia sobre o rosto nem penda junto à minha boca enquanto falo
embora fale pouco
(eu cortei o cabelo para ser mais fácil passares nele as tuas mãos)
de noite tenho sonhos que não posso contar
e tento esquece-los sempre
assutas-me o corpo quando o não dirijo
(eu conheço bem o meu corpo e todo o seu funcionamento
e ensino-te a fazeres dele contigo musica nossa)
arrumo a casa
limpo e decoro
enquanto lembro o sorriso branco de um rapaz
e os seus olhos fundos brilhantes
(eu faço as malas sempre é preciso partir no tempo certo e estar em constante movimento)
Sento-me na cadeira oblíqua à janela
Fecho as pernas
Deixo as mãos
Brancas longas
Sobre os joelhos
Sentindo a rugosidade da linha
Da saia que bordei
Em longas horas
Nesta mesma cadeira oblíqua à janela
Aberta para o sol branco
E espero
Espessamente espero.
Hoje há um adeus a sufocar fechado na minha mão
saber-te
é já suficiente.
Não quero pois interromper a tua estadia em mim
pois breve a sei
e perto partirás
e talvez mesmo nunca venhamos a acontecer
assim o queirão os deuses.
Não foi alguma das tuas palavras inventada para mim
(As aparências iludem.
Às vezes, aquilo que é, é muito mais do que aquilo que parece.)

Em mais um voo, em mais uma viagem, mergulho contigo.
Um dia
olhar para trás
e ver inteira a vida toda
ENVIESADO: v. masc. sing. de enviesar
enviesado
adj.,
torto;
oblíquo;
enesgado;
envesgado.
VIÉS:
do Fr. biais
s. m.,
direcção oblíqua;
esguelha;
soslaio;
tira de pano, cortada no sentido diagonal da peça.
loc. adv.,
ao —: de través, obliquamente.
ENVIESAR: v. tr.,
pôr ao viés ou obliquamente;
entortar;
enesgar;
v. int.,
dirigir mal;
v. refl.,
andar de viés, de ilharga;
fig.,
seguir má direcção.
(donde se conclui que o problema está na acção de enviesar...
de desviar do curso normal, corrente, pressuposto, calado, aquele que
nunca se define pois o que se define é sempre o viés.
vemos então que o problema está não na natureza enviesada,
nem no sujeito enviesado mas antes na acção de enviesamento.
A acção é também a palavra.)
Não chores
Cala o teu soluçar frenetico
Ninguém o vai ouvir
Cuidado no passo
Não tropeces, não tombes
Ninguém te vai amparar
Está frio
Não tremas
Não estendas a mão
O abraço de Ninguém te espera
Mas há o fruto
O fruto só que provaste
Toma-o
Retoma o pecado original
nenhum capital, nenhum secundário
que a Hora é de Verdade
Toma o fruto que te dou
é amargo
chupa o suco
que é fel
e trinca-o bem
que é tenro e aspero
mastiga e engole
esse fruto que te dou
deixa-o dentro de ti
sempre foi Teu
bebe
o leite negro
que desde Celan te espera
na beira do Sena
e assume o rosto no espelho
assume cada ruga e cada cicatriz
cada expressão que teu rosto traduz
e não te esqueças de olhar de frente,
nesta hora exacta,
o teu verdadeiro rosto
esse que Ninguém vê
não te esqueças de olhar dentro dos teus olhos
e ver o olhar que Ninguém vê
e de gritar o teu verdadeiro nome
esse que está intacto
esse que Ninguém te deu
- Podias ensinar-me a fazer arroz-doce, como aquele que tu fazes.
O teu é o melhor. É mais cremoso e saboroso que os outros.
- Ora, é tão fácil. Mas tens de dedicar o dia ao arroz-doce.
- O dia?
- Sim, é um doce requintado, exige atenção, é preciso que tomes todo o
cuidado e que o deixes em lume brando, a cozinhar lentamente,
para que o arroz e o leite se fundam no doce. É preciso dar-lhe tempo,
para que ele fique macio.
Se estiveres com pressa não vale a pena. Ficas com o doce estragado.
É preciso saber esperar. O arroz só fica pronto quando achar que o está.
Nos conventos as freiras dedicavam-se pacientemente aos doces.
- Por isso é que tinham aquelas barriguinhas.
- Se não souberes esperar, comes sempre finita verde.
Faz-te mal ao estômago. Mas também não deves come-la muito madura,
não a deixes passar do tempo.
ainda não
mas todas manhas
quando acordo
e me recuso
ao sonho
vejo um rosto
no espelho
e procuro
outro
que ainda não
talvez nunca
mas não este
que todas as manhas
retiro do espelho
e o visto
sem saber
o que fazer dele
talvez nunca
mas talvez ainda
um outro rosto
que não este
com que me condeno
mas talvez nunca
e seja sempre
esse rosto estrangeiro
que visto
todas as manhas
ainda
há dias em que acordo para ser criança
e me deixar pular de alegria por essa prenda invisivel que me dás
outros dias acontece de eu ser adulta
para tratar com cuidado os assuntos sérios de que me responsabilizo
às vezes acordo com preguiça
e sou languida e irresponsável
e gosto mais da luz do sol e das coisas fúteis
dias há em que me recuso ao espelho
e me recuso ao outro
porque não me aceito
ou então acontece de eu sair a correr para encontrar este e aquele
e para que me vejam e eu brilhe mais e mais
dias há em que me sento para ser branda e observar a pureza de todos os encontros
mas muitas vezes acordo guerreira e visto a armadura mais forte que tenho
para me poderes atirar pedras e eu não deixar que me magoes
às vezes abraço-te para teres um abrigo
mas outras atiço-te para veres os teus novelos mal enredados
e ponho sal nas tuas feridas para que não te esqueças de as tratar
há dias em que me sinto cansada e prefiro esperar por outro sol
mas propício para a viagem e por isso mantenho a noite e redor e não acendo luzes
e há mesmo dias em que me perco numa infinidade de amores e não dou a cada um o tempo devido
há dias em que olho para ti e outros em que não
há dias em que me evito e em que actuo com medo de me ver mais de dentro
há dias em que não me reconheço e não sei como sou
há dias também em que não sei usar a liberdade de ser o que quero ser
há ainda dias em que me experimento como se deixasse de ser eu
mas em todos os dias não sou ponte, nem outro, nem tédio.
em cada dia sou eu
apenas eu
sempre eu
em expansão
não
ele diz que não
que não a deseja
que ela não o constroi
e que quase nem existe no seu universo
não conta não se vê não tem valor
e amigo adverte: cuidado, ela é intensa não se prendam
que é mas dificil voar quando se está enlaçado
e diz
afastem-se
não vale a pena
ela não brilha não eleva não
ele fala
ele conta que ela não tem bons sentimentos por ele
que ele sofre porque injustiçado
mas não fala por gostar antes por ela a isso o obrigar
e ele narra-a e narra-se também
apenas para dizer que não, que ele é melhor que ela
e ela existe na narrativa apenas para ser marco
referência de comparação
e gosta de a ter por perto
para que ela prove como ele é melhor que ela
mas não
ele diz que não
que não a deseja.
ela sim
ela diz que sim
que ele é um amigo
aqueles por quem temos respeito
nada mais
e presa ela a ele diz que sim
que ele vive muitas emoções porque quer voar muito e não pode
ela cala-o para se calar a si também
narrando assim memórias doces
e possbilidades já consumadas
que ela não pode deixar sair
e por isso ela faz dele silêncio
salvo os momentos em que diz que sim
que ele é do bem
e diz-lhe sempre que sim a ele
para se decsulpar de não ser como ele
porque ela é diferente
e marca-se nessa diferença
para dizer o que ela não é como ele
e o que é como ele não é
e o que ela aprendeu com ele e que não poderá ser
e o que ele não aprendeu com ela porque não quer ser
e gosta de estar perto dele para provar
como ela é melhor que ele
mas sim
ela diz que sim
que não o deseja.
ele fala-se nela
ela cala-se nele
na indiferença que um tem pelo outro constroém-se assim
para dizer que um não deseja o outro porque se um desejasse outro
deixaria de ser um para ser outro e de ser outro para ser um
e então consumir-se-iam e perderiam o jogo das vontades
e uma fogueira aconteceria pois o intelecto e o afecto acordariam
e compreenderiam então que tudo é mentira e depois...
não haveria razão para manter a verdade e teriam de aceitar a mentira
mas tal não pode ser porque temos de ser todos verdadeiros e amigos,
afinal quem é que andamos a enganar?
Moral da história: o pensamento pós-moderno é complexo.
ou melhor, o afecto pós-moderno é hologramático.
Obrigada
estou a ti
laçada
atada
por me recordares sempre
pelas melhores e piores provas
que sempre somos agentes
autores
que criam
e actuam
fazem
concebem
e que nos cabe a nós
agentes
limpar cada palavra
de toda a violência
que ela em potência transporta
o amor é um exercício de depuração
da agência
da palavra
do Verbo
Cada palavra minha
não pode ser pedra tua
nem eu serei espelho
para construires a imagem tua
sem que antes
te depures também.
Seremos sempre
agentes da ordem
não porém de uma ordem arbitrária
totalitária
absurda
antes sim
dessa ordem na qual nos inscrevemos
a qual escrevemos
exercendo a nossa liberdade
de sermos criadores
de nós mesmos
numa escrita contínua
não podem as pedras que me atiras
causar-me dano
não que eu seja para elas fortaleza
resistente
nem mesmo parede de fumo
que nada retém
as pedras que me atiras
entram em mim
mas não de mim saiem
todo o perigo está naquilo
que sai do homem
acção tua são as tuas pedras
que eu não posso resolver
e servem apenas para me lembrar
das pedras minhas
que comigo guardo
eu sou uma rocha
que forte resiste ao mar
e sustém a praia
eu sou rocha
obstáculo à intempérie
resisto
ao vento
ao mar
ao ar
à água
á mente, que se trai
ao sentimento, que se desentende
eu sou rocha
que guarda grutas
dentro de si
escuras umas
brilhantes outras
abrigos
abismos
ninhos
perigos
rocha que redonda se molda ao mar
rocha pedra bruteza que protege e acolhe
e respeitando o tempo
se desfaz, invisivelmente, em seixo
para depois ser pedra
e pedrinha
e se fazer depois em areia fina
e rolar no mar
confundida ja
na fusão da onda
eu sou uma rocha que sabe
que à terra há-de ceder
quando o tempo quiser
e há-de desabar
e outra forma
erguer
Narciso procurando-se no lago
Eco na montanha tentando ser ouvida
Ele enlevado, elevado
Ela dispersa, desesperada
Narciso, vê-te de novo
Emociona-te perante a beleza tua
insensível, na água
muda que não te responde
Eco repete-te de novo
Mantém o hábito no ouvido vizinho
Desatento
Á voz do silêncio
porque desrazão procuras tu narciso?
porque insensatez te não bastas a ti mesma
e te vais repetindo
irrazoavelmente
narciso desprezado de si
eco já de si esquecida
ou então
ambos ocupados em sua paixão fechada
esquecendo-se um do outro
Ao homem sim
é dada inocência
e assim menino
ele pode perder
um sorriso pálido
levado
traído por si mesmo
enganado pelo tempo
Não à mulher
é dada inocência
o corpo não o permite
ela que é estática
ampla
ela sabe
cala e guarda
em si
verdades terríveis
– Eu tenho medos… que me assaltam de noite…
Medo de não ser grande,
medo que me destruam numa noite escura…
Ora que coisa é essa que me dizes?
Senta-te aqui.
Aqui onde eu estou.
(Respiro fundo, inspiro até que a luz chegue a cada célula, até à última célula. Expiro lentamente, deixando sair tudo o que não me faz falta. Levanta-se o vento e o meu cabelo esvoaça. Fecho os olhos para ver melhor onde estou.)
Encosto-me
Abro os braços
Abro o corpo, deixo-o assim exposto ao ar doce que me rodeia e à paisagem de branca e rosa e amarela.
Sim. Foi sempre deste lugar que me falaste. Sempre aqui estiveste.
Estendo o olhar e acompanho-me de um sorriso um pouco tonto, um pouco embriagado.
Serenamente, participo na ordem das coisas.
Avisto o que me rodeia e vem até mim e me convida a participar no que não sou.
Tranquilamente,
Sei que o que me espera é um caminho protegido.
Sei que agora é um espaço imenso.
E que estar só, é só uma vontade de espraiar o pensamento. E nunca estou o estou.
Aqui onde estou também sei que posso ser alimento.
(eu guardo memórias de um restaurante onde se servem refeições quentes e saborosas acompanhadas por um sorriso aberto a viajantes que se procuram. E também de uma hospedaria que oferece conforto e acolhimento em noites mais escuras, noites adversas, noites que só existem para ajudar a formar esse espaço de acolhimento. Eu quero ser esse restaurante e essa hospedaria).
Aqui a poesia é vestida por sobre a pele.
Deixa de ser palavra
Para ser hora e olhar.
E agora recordo essa viagem mítica que fiz com dois heróis do meu tempo.
Se calhar sonhei. E continuo a sonhar com uma paisagem bucólica com cheiro a lavanda.
Parece então que andámos por aí a construir os sonhos que eu hei-de sonhar e que me sustentam a realidade.
Fomos quatro (sim, o Caeiro também por lá nos acompanhou, rebolando nos campos)
Fomos muitos (que connosco na memória levámos)
Voltámos mais (mais nós, prontos para outros).
Eu sei que sempre aqui estive.
Mas sei também que haveremos de partir mais vezes. Muitas mais.
(Durante a viagem)
Agá de Homem, sereno.
Agá de Menino, deslumbrado.
Agá de mão segura e gesto firme.
Entre agás (à procura do que somos e seremos)
Haveremos (de ser)
Na hipótese
De uma hora perfeita.
Entre agás
Possibilidades múltiplas
Horta, Húmus
Humano, híbrido
Hidra e Hera.
Haveremos (de ser)
Haja (bem)
Bem-hajam!
Texto pós-alentejo aproximativo a um sentido
(Chegam-me novas de que me foi, da parte de mui nobre cavaleiro
de terras distantes, um ultimato endereçado...
(são sempre distantes as terras dos mui nobres cavaleiros,
parece que por aqui, nas vizinhanças,
a nobreza se esbate com o acostumar do olhar).
– Perdoai-me o reparo mas não se trata de um cavaleiro…
pelo menos não de um cavaleiro andante…
– Sim, bem o sei. Sensatamente o dizes. Trata-se de um pássaro, desses que habitam pontos altos e dançam nos céus, nesses céus onde nos esquecemos nós de andar. Não sei porquê… Que pobre mania essa de levar as palavras à letra e não deixar que elas nos contem todo o seu sentido. É preciso saber escutar as palavras. Algumas são tímidas como as virgens. É preciso estar atento. Cavaleiro serve para enaltecer a nobreza de alguém, que importa se vive na terra ou no mar ou nos céus!)
Meu verdadeiro amigo. Uma vez mais cabe-te a ti esse dar-me-a-mão e me conduzir por onde eu possa ir de olhos fechados.
(- Pois que a honra me obriga a dar resposta e a fazer chegar a outras paragens o que trago cá dentro. Mas ai de mim, que de mim pouco sei. Destemida, convicta, convoco as ordens das palavras que me habitam, ordeno que se organizem e que se mostrem. De pouco me serve. Não me obedecem, esparsas que estão, distraídas com temporalidades. E em noite aberta deixo assim, numa desordem de sentidos, a morada da generosa Alda, que me havia acolhido).
§ Não posso usar essas palavras já gastas pelo uso e desuso e abuso.
Já entranhadas no ouvido. Já as conhecemos bem, nem damos por elas, pois que as reduzimos a transparências. Não têm já vigor suficiente para nos obrigar a ouvir o eco que fazem em nós que as escrevemos, nós que as lemos. Mas tão pouco posso ousar excedê-las. Extravagância arrogante. Nada mais há para além das palavras. Detenho-me e hesito perante qualquer exercício narcísico e banal de inflamação do ego.
(espelho meu, espelho meu… haverá sentimento mais invejado do que o meu?)
(cuidado: perigo de explosão. Material inflamável. Não colocar perto de fontes de calor)
(Qual ego? Aqui onde me encontro, aqui onde eu cheguei, onde me ajudaste a chegar, há palavras com tão pouco sentido... ).
§ “A Viagem faz-se por aproximações”, dizias. E só pudemos concordar. Mas eu não sabia. Pensava que quando não se chegava exactamente onde se queria chegar, era porque alguma coisa tinha corrido mal, ainda que a viagem fosse prazerosa. Afinal, era tão simples e era isso que tu tinhas para me dizer: a viagem faz-se por aproximações. É mesmo assim. Só assim. Não se pode saber onde queremos chegar se não deixarmos que a viagem no-lo diga. Ela sabe mais sobre si mesma do que nós sobre ela.
Não chegámos a parte alguma porque era já aqui que nos encontrávamos, Era já aqui que estávamos, que sempre estivemos.
§ Fugir do Lugar comum.
(E como nós fugimos do lugar comum… para encontrar o que de mais comum há no lugar…)
O lugar comum é, como o próprio nome indica, aquele espaço, físico ou poético, que é comum, que já todos conhecem e que todos podem visitar. Ora, fisicamente, o lugar comum é aquele que se visita todos os dias pelas razões mais comezinhas. Exemplo de lugar comum, seria a estação de metro perto do local de trabalho de um indivíduo. Ora este espaço tem tanto de comum, quanto o indivíduo o visita rotineiramente e sem um propósito mais altivo que aquele de cumprir uma missão quiçá enfadonha. A “comundade” do lugar impede que o transeunte lhe vislumbre a estética. Lugar comum pode ser também a igreja onde a Tia Alice trabalha, limpando todos os dias o pó aos santos, que são de madeira e acumulam ácaros e se ela o não fizesse corriam o risco de ganhar caruncho e se tornarem santos de pau oco. Comum também é o passeio onde o Sr Jose Bentes vende amendoins aos automobilistas que o acaso quis que se juntassem todos os fins-de-semana na bicha, que assim que ele lhe chama, para a entrada no ferry-boat de Tróia. Mais comum ainda é o ponto mais alto da praia onde o Manuel da Tia Emília esteve a pintar um banco de madeira que lá está para quem queira descansar do calor do sol.
Manda a tradição que para que a vida de alguém seja consistentemente interessante e proveitosa, ele não frequente lugares-comuns.
No campo poético, os lugares comuns são aquelas palavras que já toda a gente utilizou para descreve aquelas sensações e sentimentos que já toda a gente experimentou.
Por exemplo, fazemos uma viagem e dizemos depois:
“a viagem foi muito espiritual” ou “ou não voltei a mesma pessoas; ou melhor, voltei, voltei mais consciente de mim, sinto-me eu” ou “quando adormeço, os meus sonhos têm esta paisagem; é como se regressasse todas as noites aos lugares por onde estivemos” ou ainda “agora tudo faz mais sentido, parece que tudo está bem e sempre esteve bem mas eu não conseguia ver e achava que estava todo do avesso”.
Manda a tradição que nos afastemos dos lugares comuns poéticos, pois eles nada de extraordinário podem fazer sair de nós.
Dizer: Amo-te! É o lugar mais comum a que a nossa linguagem pode chegar. É comum porque qualquer pessoa o pode dizer e todos o compreendem. E ainda mais comum porque já toda a gente disse e já toda a gente ouviu, assim parece.
No entanto, são excepcionais os dias em lá se chega, de facto.
Talvez seja necessário, pelo menos por hoje, (re)visitar alguns lugares-comuns, muito comuns, para dizer que o que sinto é só aquilo que quero continuar a sentir e que queria que qualquer pessoa sentisse.
(Que entre o lugar comum)
§ – Cuidado com o advérbio!
– Mas ai de nós, que sem ele a nossa escrita seria pobre, limitada às cousas, que são os nomes, e aos movimentos, que são os verbos, e à natureza das cousas que se chama pelos adjectivos. O advérbio é a intensidade do movimento da cousa e da sua natureza. É polo advérbio que sabemos dos tons, das direcções, dos modos. Todala diferença existe entre escrever: és belo e escrever és verdadeiramente belo.
– Eu prefiro que as cousas o sejam quando dizemos que o são. Tu és belo é assumir a profundidade das palavras e deixar que elas nos contem sobre a sua intensidade. Tenho para mim que a palavra fala mais connosco quando a não agrilhoamos no advérbio. Tu és belo. E para mim isso chega.
(e ainda não te cantei…)
§ Sou uma flor dizem, de lavanda, aqui no Vale do Guadiana.
Dele nada sei. Baste-me sentir a brisa que pela manhã me enternece. Leda sou, de igual modo, pelo seu respirar nocturno, que me inspira as orações. Mas do Guadiana nada sei para vos contar.
Falais-me de um tal Lobo, o do Pulo.
Talvez.
Talvez assim seja. Aceito que por estas paragens um lobo perdido, em tempos remotos, tenha pulado, por alguma causa que haveremos de desconhecer, mas que talvez seja apenas aquele que teve de ser para que hoje vós podeis dele vos lembrar.
Contam-se muitas histórias.
– Ora – diz o homem-velho que por mor de sua curiosidade se aprochegou
– o tempo passa melhor se houver histórias para contar e histórias para ouvir. Que algumas histórias são melhores para se contar e outras para se ouvir.
Sim, também já me contaram dessas rochas lascadas que imponentes se desfazem nas nossas mãos, como barro. Não sei se é das rochas, se é das mãos, que foram feitas para que nelas as rochas se pudessem fragilizar. Também devem estar cansadas de as acharmos tão fortes.
Dizem que aí, a água tornou as pedras macias e redondas como ventres maternos. Já vos aninhastes por lá? Antigamente, costumava deitar-me nessas espaços redondos e meigos. A água corria com a mesma força, tão asinha como antes que dava até a crer que o fazia com desespero, mas quando eu o fazia, ela corria mais alegre, mais feliz por ser água e correr tão velozmente. A água é assim. Muito sensível nas emoções. Se reparares em, quando a terra fecha a água num lago, ela aceita-o, não foge dele, molda-se a ele. Do mesmo modo com o ar. Se o vento sopra mais forte, a água apressa-se também, deixa que ele a comande. A água é assim, não impõe a sua vontade. Mas ai de nós se não fora a água, que estes campos seriam secos e estéreis, e estas rochas não seriam suaves e redondas. E neles não haveria ser dado deitar-me para sentir com o corpo todo, que é para isso que nos é dado um corpo, essa força da natureza, onde tudo tem o seu lugar, que não nos é dada a conhecer de outra forma.
Mas há outras histórias que se contam por aí, desde a minha meninice e já meus avós mas contavam, de uns certos antepassados nossos que traziam para estas terras pedras que não há por cá, pedras enormes, tão pesadas que seriam precisos dois bois para as carregar, e que com elas essas criaturas faziam os túmulos dos seus mortos, que estes sempre os houve, se sempre foi mister zelar p’lo seu repouso. Dizem que isto é um mistério, que não há explicação para o modo como o faziam. Ora eu tenho cá para mim que a explicação existe mesmo que não exista nas nossas cabeças. Eram outros tempos, e o que se sabe fazer hoje não é o máximo do que se pode saber. Ás vezes penso que houve um tempo, já muito longe, em que os homens conviviam com esses mistérios e eles não tinham mistério nenhum. Como o tal Tobias, que conversava com o seu Anjo. Ora que mistério tem isso? Depois por alguma razão que havia de ser nos esquecemos e tivemos de aprender a fazer tudo de novo. E como ainda aprendemos pouquechito, vemos mistério por toda a parte.
Pois a mim não me espanta. Eu também vejo este sol todos os dias e não ando aí interrogando-me sobre a razão de ser deste sol. Dizem que é uma estrela e que tempos houve em que não havia sol e que tempos haverá em que ele deixará de existir.
Ainda assim, este é o Sol.
E a mim basta-me levantar a cabeça e ver a ponta do meu nariz recortada no céu. Vejo-a assim bem definida e sei que este é o meu nariz porque o vejo.
Também posso esticar o braço e abrir a mão. Espreguiçar os dedos e vê-los como querendo ser raios de sol. Parece que quero agarrar assim o sol. Mas não é verdade. De que me serviria ter o sol na mão? O que é belo, é belo mesmo se não estiver preso na minha mão.
Agora desses mistérios de que me interrogam, nada sei.
Sempre aqui estiverem estes montes, estas árvores e mais aquelas além, estas florzitas, este rio e outra ribeiras que por aí há.
Estou só estou aqui. Nada sei de mistérios.
E não estou esperando nada. Vivo apenas cada instante pleno que por mim passa. E deixo que o instante me viva também.
Sim, por vezes sinto saudades. Mas então, o que é que se há-de fazer?
A saudade é já tão antiga, já a conhecemos tão bem, desde velhos tempos em que se faziam antigas de amigo, que a cantamos (Ai flores, ai flores do verde pino,/se sabedes novas do meu amigo?/ai, Deus, e u é?//Ai flores, ai flores do verde ramo,/se sabedes novas do meu amado?/ai, Deus, e u é?).
Por isso não me detenho nessa saudade. Sei que amar é assim. E não amo menos por mor da saudade. Talvez até ame mais, pois como a planta também o amor precisa de tempo para crescer, para se nutrir. Cultivo em longas horas meus sentimentos pela Amada.
(As palavras não estão acorrentadas umas nas outras, numa sequência como uma corrente. E essas coisas que se dizem das cerejas não é verdade. As palavras estão ligadas entre si por relações insuspeitadas. Algumas palavras mais seguras de si, expõem-se, como querendo receber mais atenção. Mas outras há que se escondem, traquinas, em recantos que desconheço. Algumas, fá-las a timidez teimarem em não aparecer quando as convoco. Despedem-se e teimam em ficar sós, a fim de melhor meditarem sobre o seu sentido. Há que dar tempo às palavras).
§ (continua o velho)
– Julgais vós que sois os primeiros a percorrer esses caminhos? Pois ficai sabendo que já muitos por aqui passaram e também vós não sereis os derradeiros. Dizem eles que aqui encontram o que há muito perderam. Pois eu não compreendo como se pode perder aquilo que nunca deixou de existir. Mas ainda que alguém jamais tivesse deixado as suas passadas marcadas nesses montes, eles não deixariam de existir. Pelo contrário, algo me diz que é por percorreres esses caminhos vós existis. Do esmo modo, também vos não existireis se de por cá não estivessem, pois de vós não teria qualquer notícia.
§ Ora, e vós sois de onde? Da Cidade Grande?
Não a conheço. Mas vós sois meus irmãos, pois que temos a mesma natureza e temos as mesmas palavras para dizermos aquilo que queremos dizer, e assim nos entendemos. Viemos da mesma terra e ascendemos aos mesmos céus. No entanto, pesa-me que vós tenhais uma vida diferente da minha. Viveis num mundo mais pequeno. E tendes outros medos que eu não tenho. Viveis no meio do ruído e o ruído não é bom para escutarmos o que o mundo nos está dizendo. A mim faz-me espécie que nessa vossa terra seja preciso fazer coisas muito diferentes quando alguém está precisado de viajar em pensamento. Nós aqui, fazemo-lo todos os dias, só temos de abrir a janela. E voamos, voamos muito, para bem longe, muito cá por dentro. E voltamos quando queremos. Temos todo o tempo para nós.
§ “A Viagem faz-se por aproximações”. Se for mesmo assim, também o texto, viagem híbrida pela folha, pelo espírito, se faz de aproximações. Não existe o texto antes de ser escrito e depois de o ser ele não é aquilo que pensávamos que seria. O texto é o texto. Não é o texto-que-eu-quero-que-o-texto-seja (mania barroca essa de hifenizar todas as palavras para fazer com o que seu sentido seja um todo, a palavra não nasceu hifenizada).
(também é preciso deixar cair a virgula, despojarmo-nos dela, essa vergastada na frase. Causa-me arrepios. Lembra-me os escravos nas senzalas. Quando eu andava na escola. A professora dizia que a vírgula era para marcar o momento em que deveríamos respirar. E os meninos paravam na vírgula e enchiam de ar os pulmões.
Se não houver vírgulas? Será que sufoco?).
(Ou de como um P e um J fazem um oito
e de como o oito é o nó da eternidade)
– Está na hora de ires dormir…
– Sim, mas contas-me aquela história?
A do príncipe completo e da princesa brilhante?
– Está bem…
– Era uma vez…
– Era uma vez, há muitos muitos anos, uma princesa muito bonita chamada Anajo que vivia na torre num castelo. O castelo tinha um jardim cheio de flores e um rio. A princesa vivia serena mas por vezes entristecia-se porque no escuro ninguém a via. De noite, só se conseguia ver a Princesa se houvesse lua cheia.
– Mas depois veio o príncipe!
– Sim. Era uma vez um príncipe chamado Balop que vivia num reino muito distante e era muito corajoso. Balop vivia sereno mas de noite chorava porque o seu coração tinha um buraquinho por onde entrava o frio. Ninguém sabia que era assim. Mas Balop entristecia-se porque quando sentia esse frio, nas noites em que não havia luar, pensava que não fazia sentido nenhum lutar tão destemidamente. Então um dia, o príncipe decidiu partir e procurar uma cura para o seu coração.
– E então conheceu a princesa!
– Estás a apressar a história… Mas foi assim, o príncipe partiu e viajou com o seu cavalo por muitas terras, montes e vales e, certa noite, chegou ao jardim da princesa Anajo. Era noite de lua nova, não havia luar, mas Balop viu a princesa e o olhar colou-se logo no dela. Então Anajo começou a brilhar, a brilhar, a brilhar muito como se houvesse lua cheia. Muito feliz, a princesa encheu o coração de Balop com flores perfumadas e ele deixou de sentir aquela tristeza que o fez partir. Então ele ficou completo e compreendeu que só tinha deixado o seu reino para encontrar Anajo.
– E viveram felizes para sempre!
– Sim, mas espera, a história não acaba aqui. Como Balop era tão completo e Anajo tão brilhante, eles decidiam partilhar isso com toda a gente que encontravam. E então todos os seus amigos participavam no amor deles. A princesa dava-lhes brilho e o príncipe defendia-os erguendo a sua espada.
– É por isso que eu gosto mais desta história. É diferente das outras.
Apetecia-me hoje um poema
catedral em pedra branca
de palavras exactas
ordeiras
correctas
medidas com esquadro e compasso
uma luz incessante
impossível de encontrar em paisagens familiares.
mais uma vez foste para mim veículo
agente intermédio
intermediário
para me traduzir o que o silêncio há muito insinua:
há uma viagem por cumprir
saibamos então despir a armadura
com que nos imunizamos face ao tempo
saibamos então caminhar descalços
para sentir a terra
saibamos olhar além do comum
com que nos obrigamos a distrair
de nós mesmos
e assim, atentos, nos renderemos ao momento
em que o mergulho ou o voo surgem como uma mão estendida
a uma medusa e a um pássaro
que não lhes resistem
a viagem impõe-se
e promete ser longa
Foi sempre nossa
essa impossibilidade de pronunciar a palavra certa
de executar o gesto preciso
Foi sempre nossa
uma canção desafinada
em tom de melancolia
sobre a distância de uma ternura prometida
se eu soubesse alinhar os caminhos em que te moves
e apagar os muros que enfrentas
soltar-te dessas teias que te embaraçaram
ou soprar as neblinas que encontras
dar-te novos sapatos para a caminhada
e tornar amena a paisagem
com linhas breves e suaves
e cores ingénuas
rodear-te de flores e aromas frescos
e colocar ainda no teu caminho muitas surpresas
e um grande sofá de algodão branco
ou uma nuvem para repousares
e te esticares
e depois era só desenhar um grande espelho
para reflectir a tua luz
e assim terias sempre dias radiantes
![]()
Os Olhos de Gulay Cabbar [Olga Roriz]

Coro e Orquestra Gulbenkian >> Lawrence Foster & Ute Lemper
Nem acredito que estamos lá!!
Sou super fã!
Se fossemos ainda jovens e tivessemos todo o tempo pela frente
levar-te-ia a praias brancas espumadas
assim, tarde como é, so te posso oferecer as minhas mãos
para nelas dançares quando te apetecer
ou antes te aninhares
quando o vento for mais forte
se me beijasses agora
e o meu corpo aquecesse
eu saberia dançar contigo
essa dança-nossa que está por cumprir
a dança em que morreremos juntos
chorámos horas vãs
e o teu rosto é hoje esponja a absorver o meu sangue
não soubemos
beber a lágrima
que é doce
nem
limpar a ferida
com as mãos
que são ásperas
fomos mais exigentes
não nos quisemos fracos
e juntos nos desfiámos
juntos descemos
juntos nos puxámos
para baixo de nós
um a sobrepor-se ao outro
um a cumprir a missão
de aliviar dores do outro
em águas espessas
onde não sabemos respirar
Esta é a noite em que
disfarças o teu medo
disfarças o choro
e falas para não te ouvir
e agora não há outra escolha
a tua voz não me deixa mais ver-te
a noite não promete aventuras
nem ruas em que nos perdemos
em nós
a noite hoje traz a saudade
do tempo em que nos víamos brilhar
do tempo em que nos abríamos ao futuro
a noite hoje traz-nos um ontem
já tão distante
e é já tão tarde meu amor
perdemo-nos
quando fomos mas longe do que podíamos
mais longe do que sabíamos
e nem uma barca para o dilúvio soubemos preparar
e a bossa-nova não nos acalenta
nem o outono nos faz abraçar
nem a chuva nos redime
esta noite não temos esperanças
nem sonhos
esta é a noite em que puxamos as cortinas
fechamos as janelas
e nada nos embriaga
e já não temos danças
nem ritmos
e o nosso mover é apenas um gesto pesado
gasto
numa noite que não é nossa
trocarmos agora de orações
não nos traz de volta a nossa embriaguez de ontem
brindar hoje à vida
não nos abre as portas das nossas casas
eremitas
nos nossos castelos escuros
guardados por águas frias
afastados do mundo
sozinhos com a nossa memória
do tempo em que éramos jovens e nos soltavamos de todas as amarras
atando-nos em nós
longe que nos sabemos hoje
choramos um pranto triste
invisível
e nem a ternura noz traz alento
de ontem são as noites rasgadas
os nossos braços animais
tal como os medos
as angústias
as revoltas
De hoje é apenas a certeza segura e sólida
de sermos cristais sem água
serenamente suspensos no tempo
em movimentos lentos e pensados
reinando num mundo em que amanhã é só o arrastar de hoje
estendendo-se eternamente
e gelando-nos o peito
Se procurasse mais um lugar
onde ao longe ainda te avistasse
para me acalmar
anseando
brisas que te trouxessem de volta
ou que as tuas mãos ainda aqui pousassem
sei que os teus dias não serão passados comigo
mas não sei onde pairas agora o teu olhar
não é esse não me veres
é antes o não saber o que vês
é antes o que em ti silencia e que não sei ler
e se eu te dissesse alguma coisa mais profunda?
alguma coisa que pudesse fazer um eco maior em nós
se eu soubesse entrar pelo teu olhar com as janelas que me abres
e então mostrar-te o que em nós seria revelação
se eu soubesse despir-me contigo
e beber contigo
águas que nos aliviassem de todos os pesos que trazemos
e vinhos que nos rasgariam o rosto em emoções
movimentos que saberíamos fazer a dois
danças para construir os nossos mitos
lá no fundo
do tempo
se eu soubesse olhar a luz de frente
sem que me ferisse o olhar
em vez de procurar a tua sombra
se eu soubesse alinhar os caminhos em que te moves
talvez assim soubesses
que desde cedo te reconheci
Primeiro de Janeiro
Janus
com duas faces
dois.
não um, mas dois
Passamos o arco, abrimos portas
saímos do velho
e entramos no novo
ou então,
seguimos em círculo
entramos e saimos sempre
fizemos os votos
dobrámos as folhas
não em quadrados mas antes em esferas
são círculos
os votos
são curvas em que nos cruzamos
e encontramos
e reencontramos
Em 2004, eu voto em Ti, que são Todos
porque as nossas linhas têm Nós
I Acto
A mulher, velha, disse:
"eu sei de cor as letras destas canções. É a minha distracção... é assim que me distraio" justificando-se perante o olhar surpreso do rapaz-neto.
II Acto
A rapariga, nova, disse:
"é assim que me distraio porque não tenho outra ocupação", justificando o seu gosto pelo lazer.
"- Question!"
"- Yes..."
"- From what are they trying to be distracted?"
tornar a dor pública
dizer-lhe olha-te ali a sujar o branco da folha
descolá-la de nós
na ilusão de pulsar sem ela.
a palavra escrita cerca, situa, equaciona, prende.
Há uma luta que se repete nos nossos gestos cansados
e no entanto, há sirenes na noite fora da casa.
com medo subo a escada escura de madeira
sujo as mãos do pó do corrimão que desce em vez de subir
olho para cima e vejo o escuro do andar seguinte que me espreita
à minha frente a sombra que foge antes de eu a ver
atrás de mim o cão de duas cabeças e os ratos
que ainda não me alcançaram e que não oiço
degrau à frente de degrau os meus joelhos rodam
na excatidão geométrica do abismo de que se escapa
corro
e o cansaço acompanha-me
subo
as janelas fogem
chego
é largo o terraço branco aberto
quadrado
eu no centro
avanço
limites
linhas
arestas
espreito
recuo
respreito
respeito
profundidade
altura
distância
vazio
avanço
um passo
não!
acordo
salto
sobressalto
o chão debaixo dos pés.
e o sol rasgado à janela.
Deambulava a minha alma pelo teu sangue
Veludo
Velando pela tua matéria
Vigiando de longe uma chama etérea, a tua.
Que feitiço se aninhou nos meus olhos? Que poção tua inunda o meu corpo e de ti me deturpa a gnose?
Essa minha alma errante…
De mim apartada, a mim não torna.
E a sua embriaguez deixa-me assim
derivante, derivando da tua luz, meu centro.
E sou reflexo teu
Espelho-te
Espalho-te
Difundo-te
Longe, mais longe ainda, distante, longínquo, remoto…
Intangível o meu reflexo de ti
E com ele a minha alma flutuante.
E dele a minha alma ondulante.
Que manhã de neblina estendi no meu horizonte? Que encadeamento me projecta na escuridão?
lembrei-me hoje de ti.
estavas só, no lago azul e amarelo. era a tua luz que eu via.
depois ouvi a tua voz fresca e quente. aconcheguei-me nela. enrosquei-me.
inspirei a tua força de prana, o teu brilho irresistivelmente inseguro.
cintilavas.
senti-me bem e estiquei lentamente os braços pelo teu ser.
acordei, assim, hoje de manhã.
lembrei-me de ti.
em cachoeira fresca e verde limpei minh' alma
liberando na água cada detalhe que me já não serve porque meu corpo cresceu,
folhas caídas de meu peito,
peles secas e rugosas de meu rosto,
escamas memoriais,
velhas raízes já sem vida,
retirei-as minuciosamente dos meus cabelos,
desfiei a hera dos meus dedos,
e lentamente despi a pele já solta e o ar invadiu-me fresco e doce,
prana com cheiro a limão verde.
Soltei as conchas da minha boca e os búzios dos meus ouvidos,
abri os pequenos cofres do meu sótão
soltei pássaros que abriam asas nos meus olhos,
abri janelas com vista para o horizonte
brancura lisa e densa, plástica, elástica
que me recolhe e me projecta.
recoloquei-me na praia
reabri esses rios que me ligam ao céu.
atenta que estou a ti,
e que o teu sopro seja para mim de novo Verbo, palavra e luz.
e que me inundes e banhes de ti e eu te seja.
a multidão
a tua firmeza de estátua esculpida e branca
de traço fino e forma suprema
não me aquece as mãos
Amargo.
Sabores amargos. Cruéis.
Esperam por ti.
Medusa de cabelo verde ondulado e espesso. Serpentes que gritam e agonizam no teu corpo.
Liberta-te.
Grita
Solta o teu nome
Rasga o silêncio que edificaste
Quebra de uma só vez todas as correntes paredes muros limites fronteiras pedras pesadas e duras e respira.
Devagar
Respira
Devagar onde vais assim com tanta sofreguidão?
Respira com calma
Não.
Morrer de fome de alegria.
Quero adormecer sobre o teu olhar
Sem motivo, nem medo nem culpa.
Talvez acorde e estenda um breve olhar pelo mundo.
Mas logo me aconchegarei no teu estar.
Respirar-te-ei como prana.
Aum.
Era ali junto a esse Tejo
Que eu costumava sonhar
Tinha o sol por perto e as ruas estreitas de cheiro
Estreitas de fado
A brancura das casas, a história presente em cada detalhe
Essas fotos de Lisboa antiga que agora me envias lembram-me como era ser criançaa então. Sem medos, sem culpas e sem relógio. Era largo o tempo quando me sentava nas pedras da calçada ou num degrau daquela igreja, testemunha anciã de; de Saturno. Recordo o arrulhar dos pombos que me habitava os sonhos, terrível na sua inacessível razão. E o cheiro a petróleo da velha mercearia, shopping de então, com coisas de gente crescida. A fruta gulosa nas portas e os sons mulher vibração ecoavam em cada canto do cé;u aberto.
Subir aquela escada larga em passo mais largo ainda.
Deslizar pelo corrimão verde numa aventura, circo vivo de emoções.
As sandálias grandes da minha mãe batiam-me alto na calçada da rua íngreme que prometia uma queda, e um joelho manchado. O que arde cura! consolo sobre o algodão que não curava a ferida antes exigia um mimo maternal.
Olhando bem, ouço ainda os sinos da igreja grande e de portas pesadas.
E as banquinhas das festas, as cores dos santos, o ritmo fácil e contagiante.
As bombocas e os nogats!
O meu nome está; ainda em cada canto, gritado de janelas pequeninas de águas furtadas.
Ouço o vizinho amigo família. Da minha casa vê-se a tua, mesmo lá dentro, mesmo no fundo do teu espaço. Comunhão. Segredos trocados. Promessas feitas.
Entre o sol e a lua, gatos ronronam no telhado. Gatos do Tejo, gatos de Alfama que guardam a sabedoria dos tempos, gatos íntimos da verdade, frequentadores assíduos do absoluto.
O Tejo lá ao fundo e nada é como era ou será. Movimento. Borbulhar, sussurrar de criança traquina. Reconheço a minha ténue existência no cheiro dessas fotos.
Alfama mater matrix
Alfama em círculo redondo contendo um ponto meu ao centro.