Parabéns "menina dos olhos de gata"!
Vendo assim a fotografia é que percebo há quanto tempo nos acompanhamos.
Fui ter com ela. Descontraída. Antecipando a festa das duas.
A menina estava sentada na areia, sobre os joelhos, de costas para mim e para o mar de onde eu vinha. Parecia brincar com o seu castelo de areia. Mas quando nos olhámos nos olhos encontrei uns olhos intensos a engolir as próprias lágrimas. As mãos desesperadas, a construir um mundo que ela sabia em breve vir a desfazer-se. O corpo a resguardá-lo. O corpo a resguardá-la. O corpo, a representar uma peça. Encenação de uma menina que se dizia feliz. E o meu mito a desmoronar-se. E ela a dizer-me com os olhos que ninguém, ninguém tinha vindo ter com ela. Nunca ninguém. Até àquele dia. Que ela sempre esperara, por aquele dia. por um encontro assim.
E eu sem saber o que dizer, o que fazer. As mãos estendidas, sem lhe conseguir tocar. Queria abraçá-la, mas não sabia como. Não fazia sentido. Só pelos nossos olhos, sem palavra alguma. E assim entrámos uma na outra. A beber lentamente o brilho de cada uma, pelos olhos uma da outra. Até o meu corpo se transformar em poça de água e ela saltar nela, nadar, rir e abraçar-me. A pele macia. Barriga na minha barriga. O calor dela. Uma pena infinita de a ter deixado tanto tempo só. E eu também tão só, tanto tempo. Deitei-me de costas. Ela enrolando-se no meu pescoço, por detrás. A recuperarmos o tempo. prometendo uma à outra encontrarmo-nos sempre. Nos nossos sonhos.
(Ana Viana, A Casa Acordada)