Pela manhã
Apago as memórias
Visto de novo a armadura
Vinda do fundo do baú
Desta vez mais justa
Desta vez mais forte
E nunca mais
Saio na urgência
Oiço as histórias de ninguém
E persisto em caminhar no limite amargo
Da beira do instinto
Vincando no corpo
Nunca mais
Nunca mais assim.
A Jéssica está com sete meses e é muito mexida.
Está quase!
Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele tu estivesses,
para que em mais nenhum tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.
Assim vivirias comigo enquanto eu existisse
e assim ficarias, entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.
(Ibu Hazm)
A criatura observou:
- uma mulher sem carta é um parasita da sociedade.
Pensei que aquela observação me atingia. Á noite, do regresso, no táxi, percebi o erro: ela disse carta e não caro. A conversa, presumo, terá seguido assim: - eu por exemplo, como tenho carta, pego no carro do meu marido e vou para qualquer lado.
A mulher não tem posse.
A mulher é gorda porque não cabe no banco do comboio.
A mulher é feia porque é gorda.
A mulher não é normal porque não cabe no banco do comboio.
A mulher é normal porque é feia, como toda a gente.
o banco é normal e foi feito para pessoas normais.
A mulher não cabe no banco.
O banco foi testado com uma pessoa normal.
o banco não foi testado.
Ninguém cabe no banco.
Para ninguém foi desenhado o banco.
A mulher não existe porque é normal.