ausência tua
para dizer deste meu esbracejar sem graça
porque em cada movimento meu
são ausentes
os braços teus
razão do meu gesto
meu andamento
ausência tua
imensa
para dizer deste meu desalento
quando todos os sons que me chegam são ruído
se não houver a voz tua
a embalar-me as horas
ausência tua
agora que já não há promessas
e me sufoca
a minha ausência do mundo
Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.
(Marina Colasanti, Um Espinho de Marfim e outras histórias)
É uma santa. Diziam os vizinhos. E D. Eulália apanhando.
É um anjo. Diziam os parentes. E D. Eulália sangrando.
Porém igualmente se surpreenderam na noite em que, mais bebado que de costume, o marido, depois de surrá-la, jogou-a pela janela, e D. Eulália rompeu em asas o voo de sua trajectória.
(Marina Colasanti, Um Espinho de Marfim e outras histórias)