brincas sozinha na areia
enquanto o jovem morre no mar
filho de pescadores
brincas na areia
e o sol é demasiado forte
para ti
queima-te a pele
brincas sozinha
e todos os bichos se escondem
enquanto remexes sozinha na areia e te contas histórias
de um ninho
de um leito
e te contas histórias
e ouves as tuas histórias
e ninguém
sai das tuas histórias
para brincar contigo
sozinha na areia
os pés descalços
marcam a praia
enterraste a boneca
e só a cabeça de fora
o cabelo seco
o teu cabelo seco
a boneca não te vê
não te conta histórias
sal da praia
a boneca faz-se velha
e um caranguejo morto
na tua mão
conta-lhe histórias
do teu futuro
para o esqueceres
antes que aconteça
e te destrua
sacudida a existência
vê-te do lado de fora da narrativa
o sentido do avesso
a razão desfigurada
gasta inútil
do lado de fora
sentes o frio de não ter história
e falas uma lingua incompreensível
do lado de fora da narrativa
podes rir sem vontade
sempre do lado de fora
sem teias ou performance
sem máscara
a medula exposta
e sempre o choque
de viver do lado de fora da narrativa
no avesso do corpo
à procura de outros motivos
mais teus
mais de dentro
impossíveis
assim
no lado de fora
e vês coisas
e sabes coisas
e não sabes
e ninguém te vê
porque estás
do lado de fora
da tua narrativa
Assim, sem aviso, a Rosa disse (e eu reconheci):
gosto muito muito de gostar
só isso
é o melhor que há!
e ter consciência, deixar-nos gostar e sentir o gosto do gostar é mesmo inebriante
alucinógéneo
é nessa que ando
a gozar o gosto de gostar
...
o motivo sou eu
eu e só eu
eu tal qual sou e sinto
eu a deixar-me sentir o que sinto sem me censurar ou julgar ou observar
só mesmo eu, apaziguada comigo própria
eu a ser simplesmemte
eu a gostar de mim
...
não sei donde mne veio esta onda
mas tenho orgulho nela
e só pode ter vindo de mim, de dentro de mim
...
portanto é um crescendo de bem estar
que se auto-sustenta
(Obrigada Rosa)
não fique triste
quando eu me apagar
faz parte da vida escura
veja o luar
veja a lua subindo
tomando o seu lugar
ondas de tristeza para apreciar
(Nitin Sawhney, Moonrise)
so pra dizer que te amo
nem sempre encontro o melhor tempo
nem sempre escolho o melhor modo
devia ser como no cinema
a lingua inglesa fica sempre bem
nunca atraiçoa ninguém
o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu
so pra dizer que te amo
não porque este embaraço
que mais parece que só te estimo
e até no momento em que digo que não quero
e o que sinto por ti são coisas confusas
e até arece que estou a mentir
as palavras custam a sair
não digo o que estou a sentir
digo o contrario do que estou a sentir
o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu
e é tão dificil
dizer amor
é bem melhor
dize-lo a cantar
por isso esta noite fiz esta canção
para resolver o meu problema de expressão
pra ficar mais perto
bem mais de perto
(Clã, Afinidades)
Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.
É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.
§
Quando a distante
prata, rondada
também pelo voo dos homens, sem
chegar entrava,
redonda,
e nos olhava com olhos de olhar:
então
a palavra dor era uma taça de onde
subia ao nosso encontro a palavra
alegra - subia,
subis e passava por nós, subia
até nós dois, sob
o telhado,
até à cama onde a noite,
mestra
dos nossos corpos, esperava silenciosa, o seu
fundo, negro como o coração, cheio
da manhã.
§
A arte paga o seu preço, o ser humano
não paga nenhum.
Vós sois pela liberdade da arte,
do ser humano
falais apenas sob
este
signo.
E afinal
existe em todos nós
o mesmo Deus, feio-
-belo,
e verdadeiro.
§
Com o vento pelas costas
morro e apago-me
na grande monção -
é então que verdadeiramente vivo.
Tive este pensamento: eu tenho uma esquizofrenia e tenho uma alucinação. E essa alucinação é a minha existência. A minha existência é uma alucinação minha. Tão somente.
Posso segurar nela, sacudi-la e pendurá-la num cabide.
Depois, posso olhar para ela. Mirá-la do lado de fora.
Aprumá-la. Ajeitá-la.
E, se o tempo for aprazível, vesti-la de quando em vez.
E passear-me com ela por aí. Envaidecida.
Olha para mim
no fundo dos meus olhos
e diz-me:
tens medo?
Ou nada?
Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Eu vi quando você me viu
Seus olhos buscaram nos meus
O mesmo pecado febril
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu
Quando você me viu...
(Maria Rita/ Letra de Claudio Lins)
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
Cerejas vermelhas
carnudas e doces
o caroço duro, fechado
que não se prova
Tudo tem de ser mudado. A decoração, o papel das paredes, o lugar dos móveis.
Tudo.
Morremos. Assim.
Sem sintoma.
Tinha sempre medo de te ver no escuro.
Medo de que me não me reconhecesses.
O mundo está cheio de sombras.
De lugares incertos.
Na missa. Olhavas o chão de mármore. Com o mesmo olhar. O mesmo olhar.
Nunca entrei nos teus olhos.
O mesmo olhar com que.
Terror.
Tudo tem de ser mudado.
Não mais os mesmos gestos.
Não mais as mesmas insignificantes abstracções.
Ou as inseguranças de quando as mãos vacilam.
Eu não sei como és. No fundo.
Nem dizer quem tu és.
Por dentro, não te conheço. E vejo sempre surpresa no teu passo.
Quando choravas.
Por vezes choravas.
Como sempre.
Um requiem ou um brinquedo. E o mistério dos teus olhos em água.
E eu nadei nos teus olhos.
Não me afoguei. Nunca.
O mesmo medo de quando abria a janela do meu quarto e via um céu imenso.
Fixo e denso. Com pontos brilhantes.
E sabia que estavam fixos.
E sabia.
E era impossível que estivessem fixos.
Maiores.
Maiores do que tudo.
E tinha medo.
Sentia uma tristeza tão pura.
Como quando nadava nos teus olhos em água.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Camões
Como se pode ver, tenho mais um livro da Y.K. Centeno: As Palavras Que Pena. primeirissima edição de 1972. Este livro foi reeditado pela ASA na colectânea Três Histórias de Amor.
“Devagarinho as mãos foram deslizando pelo corpo. Está a tremer como um pássaro. Tem frio? Um pássaro ferido. Não tenha medo. Eu estou aqui. Eu fico consigo. Podemos ir para casa. Não diz nada? As mãos do rapaz instalaram-se na garganta de Vera. Como não dizia nada as mãos começaram a apertar devagarinho. Vamos obrigar as palavras a sair. Ajude-me. Faça as palavras sair enquanto eu as empurro. Vera deixou de tremer. Já não sentia medo. Apenas certeza. La mort, à tout jamais la Mort, maintenant. Ouviu de longe o ralo espesso que lhe saía da boca e parecia vir de outra boca de outra pessoas diferente. Está quase, disse o rapaz. Já oiço qualquer coisa. As mãos apertaram com mais força. Sempre a lua na árvore, acesa como um grito. Nunca ter desconfiado dela. Derrama derrama luz correndo em fonte rápida torrentes e torrentes de água lua rosto redondo debruçado uma mulher que ama olhos faróis acesos corpo astral ro-ta-ção-lu-mi-no-sa e
O rapaz largou-a de repente. Abanou a cabeça, contrariado. Que pena, murmurou. A lua retirou-se e a noite ficou mais uma vez sozinha e escura com o cadáver absurdo junto à árvore. O rapaz murmurou: que pena. As palavras saíram esborrachadas.”
A tranquilidade ou apaziguamento que procuro escreve-se assim:
“Ao leitor:
este romance foi escrito em 1967, e várias vezes relido e alterado à medida que o tempo ia passando sem que o publicassem (…) Chamaram-me a atenção para as citações que por vezes faço, em alemão, inglês e francês. Pôs-se a hipótese de serem traduzidas – para não afastar leitores (ou editores). Mas estão de tal modo integradas no texto, não só pelo conteúdo, que eu amplio, mas sobretudo pelo próprio ritmo das palavras, que neste romance é talvez ainda mais importante do que nos outros – que não tive coragem de proceder a tal alteração.
Traduzindo, o sentido não se perdia. Mas o movimento interior do texto ficava destruído. Optei por perder leitores (já que editor sempre houve um que finalmente se dispôs a arriscar). No entanto, para não ser acusada de má vontade ou pretenso hermetismo, proponho um meio termo: indicarei os autores que foram «integrados», pela ordem do seu aparecimento no romance. Esperando que o leitor venha a interessar-se por eles, se não os conhece já. E arei também uma versão dalgumas citações para que de facto o sentido não se perca totalmente.
Se disserem que assim transformo o livro mais em objecto de meditação do que em romance – não me ofendo com isso.
Y. K. Centeno, Lisboa, Março de 1972”
As Palavras que Pena, Lisboa, Edições Ática.