A saudade
é um trem de metrô
subterrâneo obscuro
escuro claro
é um trem de metrô
a saudade
é prego parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar
a saudade
é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido
(a saudade é um trem de...)
a saudade
é uma concha velha
que cobriu um dia
numa noite fria
nosso amor em brasa
a saudade
é brigitte bardot
acenando com a mão
[Zeca Baleiro, Brigitte Bardot]
Sento-me na cadeira oblíqua à janela
Fecho as pernas
Deixo as mãos
Brancas longas
Sobre os joelhos
Sentindo a rugosidade da linha
Da saia que bordei
Em longas horas
Nesta mesma cadeira oblíqua à janela
Aberta para o sol branco
E espero
Espessamente espero.
Hoje há um adeus a sufocar fechado na minha mão
saber-te
é já suficiente.
Não quero pois interromper a tua estadia em mim
pois breve a sei
e perto partirás
e talvez mesmo nunca venhamos a acontecer
assim o queirão os deuses.
Não foi alguma das tuas palavras inventada para mim
É linda!
É uma medusa!
É da Rosa Pomar!
É minha!
E foi uma aventura cheia de cumplices.
Obrigada H, H, J e P, C, S, M e I.
dia de reflexão.
obrigada pelas questões e por me levares contigo.
(As aparências iludem.
Às vezes, aquilo que é, é muito mais do que aquilo que parece.)

Em mais um voo, em mais uma viagem, mergulho contigo.
(Yvette K. Centeno)
Era uma vez uma maçã: grande,
vermelha, luzidia.
O João pegou na maçã e deu-lhe uma dentada.
Da maçã sairam dois coelhinhos brancos que disseram ao João:
- Não estragues a nossa casinha.
Deste uma dentada no tecto.
E o João não engoliu o bocado da maçã
que tinha mordido.
Voltou a pô-lo no lugar.
- Vocês vivem aqui? - perguntou o João.
- Vivemos - disseram os coelhos.
- Esta maçã é a nossa casinha.
Posso brincar com vocês? - perguntou ainda o João.
- Claro que podes disseram os colehos.
Se és nosso amigo, se não nos fazes mal,
podes brincar à vontade. Olha, faz-te pequenino e vem
connosco para dentro da maçã.
- Não sei fazer-me pequeno - disse o João. - Ajudem-me.
- Fecha os olhos e pensa.
Assim foi. o João fechou os olhos,
pensou em si pequenino, e quando
os voltou a abrir já estava com os seus
amigos coelhos dentro da maçã.
Brincaram toda a tarde.
mas de repente o João lembrou-se:
- E agora, como é que posso voltar
para a minha casa, para os meus pais, para os meus irmãos,
sendo assim deste tamanho?
- Fecha os olhos e pensou outra vez - explicaram os coelhos.
Fechou os olhos, pensou em si grande como era antes
e quando os abriu já estava cá fora, com a maçã na mão
enquanto os dois coelhinhos lhe diziam adeus
lá de dentro.
O João levou a maçã para o seu quarto e escondeu-a
no fundo do armário para ninguém a ver.
Se alguém a visse poderia querer comê-la.
Por isso a escondeu bem escondida.
Para ter ali dosi colehinhos com quem brincar
à vontade, sempre que quisesse, sem ninguém
dar por isso.
Um dia
olhar para trás
e ver inteira a vida toda
Actualizei a lista de obras da Yvette Centeno, porque já tenho mais algumas
e porque decsobri que há mais umas tantas que não tenho.
Vou deixar aqui uma listinha das obras que esta senhora publicou
(ou melhor, as que eu sei que publicou, excluindo artigos que considerarei apenas mais tarde).
Com um asterisco à frente vão assinaladas as que ainda me faltam
(por isso se alguém tiver notícias do paradeiro delas, agradeço que me avisem).
Fã que é fã, faz colecção!
[versão actualizada]
1961 — Opus, 1, Edições Ática *
1962 — Quem se eu gritar [Três histórias de Amor], Edições Ática *
1965 — O Barco na Cidade, Guimarães Editores *
1966 — Não só quem nos odeia [Três histórias de Amor] *
1967 — Poemas Fracturados, Guimarães Editores *
1968 — Pas seulement la haine, Ed. Mercure de France *
1972 — As Palavras que pena, Edições Ática [Três Histórias de Amor]
1974 — Irreflexões (e outros lugares-comuns) 1961-1971, Edições Ática
1974 — Teatro Aberto, Ed. Ática
1975 — 5 Aproximações, Ed. Ática
1976 — A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe, Ed. da UNL *
1977 — Sinais, Ed. O Oiro do Dia *
1978 — Símbolos da Totalidade na obra de Hermann Hesse, Ed. A Regra do Jogo *
1978 — Fernando Pessoa (Tempo, Solidão, Hermetismo), Moraes Ed. *
1979 — Algol, Ed. Oiro do Dia *
1980 — Saudades do Paraíso, Moraes Ed. *
1981 — A Viagem de “Os Lusíadas”: Símbolo e Mito, Ed. Arcádia *
1982 — A (Más)cara Diante da Cara, Ed. Presença
1982 — A Alquimia e o Fausto de Goethe, Ed. Arcádia *
1982 — Peças bem comportadas, Ed. e etc.
1982 - Miguel e o gigante, Bertrand*
1982 - Era uma vez uma maçã, Plátano*
1983 — O Jardim das Nogueiras [Os Jardins de Eva] *
198? — Fernando Pessoa: O Amor, A Morte, A Iniciação, Ed. A Regra do Jogo *
198? — Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Ed. Presença *
1984 — Perto da terra, Presença
1986 — As Muralhas [Os Jardins de Eva] *
1987 — Literatura e Alquimia, Presença
1987 - Tratado da Ennoea, de Anselmo Caetano
1988 - Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros ensaios, Presença
1988 — Matriz, Presença
1991 - A Arte de Jardinar, Presença
1991 - As Três Cidras do Amor, Cotovia*
1993 - Portugal: Mitos Revisitados
1994 — Três Histórias de Amor, Edições ASA, 1.ª Edição
1997 — Entre Silêncios, Pedra Formosa Edições
1998 — Os Jardins de Eva, Edições ASA, 1.ª Edição
1998 — Canções de um Rio Profundo, Edições ASA
1998 (?) - A Oriente
199(?) - Será Deus o Dr. Freud? *
199(?) - Sapatos e outros escritos cruéis *
199(?) - O Pecado original
19(??) - 64 Trigramas e outros poemas*
2004 - Fernando Pessoa: magia e fantasia, ASA
Alfama-amafla-mandala

miradouro mira dor mira douro mira tejo mira de ouro mira-me

luz

lembras-te do escorrega?

vamos sentar-nos no sofá?

eu tenho um segredo sobre um espaço onde eu só eu vejo
mais longe mais amplo e limpo os meus olhos cansados
e lavo a minha alma turva

neta avô sala de estar tempo largo ternura

voltei

comigo vim contigo

"Hoje vejo-me inteira
poiso os pés
na fenda do mundo
a mão
regressa ao corpo
e chama-te para dentro do prazer.
Hoje vejo-me rápida
triunfante
quando falamos
não do que é grave
e a lassisão invade,
suave, a pele
atónita feroz.
Deixemos as leituras
residuais
a luta esquiva
e mortal
nos algarismos da fala.
Sejamos
animais cintilantes.
Ficaremos
então
no espaço mínimo
da pele
e eu ver-me-ei
uma só vez
liberta de palavras."
(Nós/Nudos. 25 Poemas sobre 25 Obras de Paula Rego)
O Quadro
(a rapariga sorri sem intermitência. sorri sempre )
- Parece que estamos a ver uma pintura. e podemos analisá-la, vista assim, de fora.
- Parece que estamos a ver um espelho. analisas a pintura. isto é, analisas-te.
- o sorriso dela lembra-me uma palavra: ilusão.
- Ilusão: tua? ou dela?
A expectativa (que gera ilusão)
- o que achas que quer dizer essa atitude dela?
- não sei, nem me interessa. Não tenho relação nenhuma com ela. Para mim, ela é só um estranho com um rosto familiar. Não a conheço.
- Essa expressão é boa: "um estranho com um rosto familiar". Há todo um pressuposto a sustentá-la... Pode uma cara familiar ser um estranho?
- Uma imagem física diz muito pouco sobre a outra pessoa. É preciso conhece-la.
- Mas talvez diga muito de ti. Um estranho com um rosto familiar pode revelar muito a teu respeito. O rosto. As linhas que compõem um rosto que tu olhas, que tu queres olhar. O outro estático, o outro rosto e braços e mãos e corpo e voz diz muito sobre ti. Porquê esse outro e não um qualquer outro?
- Estás sempre a tirar ilações de tudo o que eu digo... Não estarás tu a fazer projecções sobre mim?
- Não percebo.
- Recuso-me a falar. Isto é apenas um jogo de palavras. É lógica, desprovida de significado. É só um xadrez. Tu dominas a arte do jogo linguístico.
- O significado... era tudo o que eu procurava. Por isso te digo que é tudo mentira. É tudo mentira. Não me compreendes. O que te habita quando falas? Qual o moviemnto da palavra que me proferes? De onde vem o teu discurso e o que ele procura? Quando eu sei que tudo é tão relativo, que tudo é mentira... Já não há verdades, já aprendemos isso. Agora estamos por nossa conta. E ainda assim, falamos... discursamos, dizemos isto e aquilo... mas porque isto e aquilo?
- Isso são fundamentalismos! Tu tens de conhecer as pessoas. Conheces o rosto através do diálogo.
- E conheceremos o outro através da fala? Só através dela? Ou pode um estranho de rosto familiar não ser estranho? Será teu o teu discurso?
- Há que ser honesto, honrar a palavra.
- Todas a palavras? Honrar todas as palavras? Faze-las nossas? Então há que ter cuidado, falar pouco.
- Assim pergunto-me porque é que falamos...
- Sim, porque é que falamos?
- Não sei.
- Não sabes. Ainda assim, falas.
- Terias de perguntar aos primatas porque é que começaram a emitir aqueles grunhidos!
- Não em pergunto sobre o que nos permite falar mas antes do porque de falarmos. porque é que tu falas? O que é que te torna sujeito do discurso? Quem te habita quando discursas? Quem falará por nós?
- Qual é a tua finalidade?
- Em que?
- Em registar a conversa.
- É essa: registar a conversa. Materializá-la. Há muita gente doida por aí.
A exposição musical (ou da estética e do desejo)
- De que musica dela gostaste mais?
- Gostei mais dele. Quer dizer, o que mais gostei foi o arranjo que ele fez.
- Isso é o mesmo que te levar a uma exposição de pintura, perguntar-te de que quadro gostaste mais e tu responderes: da legenda!
- Sim, pode ser.
- Mas eu respeito a tua opinião. Somos todos diferentes. É uma opinião legítima.
- Legítima porque?
- Porque somos todos diferentes e temos de aceitar essa diferença.
- Até onde? Se esta é legítima, haverá outra que não seja...
- Não, são todas... são todas legitimas...
- Então porque é que dizes que é legítima? É porque nunca deixará de ser diferença.
Retoma
- Um estranho com um rosto familiar... É uma boa expressão.
- Não é assim. Também há familiares que são estranhos. Achas que há dor maior do que perceber que não conheces alguém que esteve sempre ao teu lado? Lembras-te do Julio Cesar? "Até tu Brutus..."
- É o mesmo que não conhecer alguém que é ainda estranho.
- É diferente: aí não há desilusão.
- mas há uma parte de ti que não conehces, que o outro, estranho, te não devolve, embora tu suspeites intimamente que ele a guarda. Vês o outro, vês um espelho. O rosto do estranho mostra-te qualquer parte de ti, que te habita, e que tu não conheces.
- Mas quando tu já conheces o outro, podes desiludir-te.
- Também aí se trata de te conheceres a ti. O outro devolve-te uma imagem tua. Um dia, começa a devolver-te uma imagem diferente, tua ainda, mas que desconheces. O outro é sempre muitos. Assumes que o outro é habitado por um só outro, estável, contínuo no tempo.
- Eu não sou eu nem sou o outro...
- E o outro é muitos... em intermitência.
Que boa surpresa...
(afinal, há por aí mais caixinhas com docinhos dentro...)
afinal Portugal ganhou à Grécia...