mais uma vez foste para mim veículo
agente intermédio
intermediário
para me traduzir o que o silêncio há muito insinua:
há uma viagem por cumprir
saibamos então despir a armadura
com que nos imunizamos face ao tempo
saibamos então caminhar descalços
para sentir a terra
saibamos olhar além do comum
com que nos obrigamos a distrair
de nós mesmos
e assim, atentos, nos renderemos ao momento
em que o mergulho ou o voo surgem como uma mão estendida
a uma medusa e a um pássaro
que não lhes resistem
a viagem impõe-se
e promete ser longa
Foi sempre nossa
essa impossibilidade de pronunciar a palavra certa
de executar o gesto preciso
Foi sempre nossa
uma canção desafinada
em tom de melancolia
sobre a distância de uma ternura prometida
Não tenhas medo de sair de ti esse jorro de água fresca
nem tenhas medo desse turbilhão dentro das entranhas
nem do sabor a sangue na boca quando por ela te suplantas
Não tenhas medo de diluíres em ti os génios que digeres e que defecas
nem tenhas medo de ser oráculo de um deus que desconheces
nem de ser nascente de um rio que não controlas
Sê tu, gruta que suporta o peso da montanha
e que escava dentro de si o seu mistério
quardando os seus sons no teu silêncio
devolvendo-os transformados
na tua água
[por dentro das palavras... o tempo]