agosto 20, 2003

Das (Im)perfeições

O encontro (meu e agora teu) com a irónica nudez de Henry Miller:

"(...) Sorrio, porque todas as vezes que abordamos o assunto do livro que ele escreverá, um dia, as coisas assumem um aspecto incongruente. (...)
O livro terá de ser absolutamente original, absolutamente perfeito. É por isso, entre outras coisas, que lhe é impossível começá-lo. Assim que tem uma ideia começa a aprofundá-la, a pô-la em causa. Lembra-se que Dostoievski a utilizou, ou Hamsun, ou outro qualquer. «Não quero dizer que pretendo ser melhor do que eles, mas pretendo ser diferente», explica. E por isso, em vez de tratar de escrever o seu livro, lê um autor após outro a fim de ter a certeza absoluta de que não meterá foice em seara alheia. E quanto mais lê, mais desdenhoso se torna. Nenhum deles o satisfaz. Nenhum deles alcança o grau de perfeição que impôs a si próprio. E, esquecendo por completo que não escreveu nem um capítulo, fala deles condescendentemente, como se existisse uma prateleira cheia de livros com o seu nome, livros com os quais todos estão familiarizados e cujos títulos é, portanto, supérfluo mencionar."

Trópico de Câncer

Publicado por medusa em 11:30 PM | Comentários (1)

agosto 17, 2003

Do anjo...

Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens
dos anjos? E mesmo que um me apertasse
de repende contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha destruir-nos.
(...)

R. M. Rilke (As Elegias de Duíno | Primeiros versos da primeira elegia)

Publicado por medusa em 10:50 PM | Comentários (1)

agosto 08, 2003

António Cícero

"Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras

sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos esconsos
em primeiríssimo.

Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho enviesado
e rosto e corpo entre muitos corpos,
um dos quais o dela. A mesma lâmina
decapitou-a também: do lado
de cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado.Mas nada é tão simples. Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Dizem que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água. "

António Cícero

Publicado por medusa em 10:05 PM | Comentários (0)