novembro 12, 2004

...

Tudo tem de ser mudado. A decoração, o papel das paredes, o lugar dos móveis.
Tudo.
Morremos. Assim.
Sem sintoma.

Tinha sempre medo de te ver no escuro.
Medo de que me não me reconhecesses.
O mundo está cheio de sombras.
De lugares incertos.

Na missa. Olhavas o chão de mármore. Com o mesmo olhar. O mesmo olhar.
Nunca entrei nos teus olhos.
O mesmo olhar com que.

Terror.

Tudo tem de ser mudado.
Não mais os mesmos gestos.
Não mais as mesmas insignificantes abstracções.
Ou as inseguranças de quando as mãos vacilam.

Eu não sei como és. No fundo.
Nem dizer quem tu és.
Por dentro, não te conheço. E vejo sempre surpresa no teu passo.
Quando choravas.
Por vezes choravas.
Como sempre.
Um requiem ou um brinquedo. E o mistério dos teus olhos em água.
E eu nadei nos teus olhos.
Não me afoguei. Nunca.

O mesmo medo de quando abria a janela do meu quarto e via um céu imenso.
Fixo e denso. Com pontos brilhantes.
E sabia que estavam fixos.
E sabia.
E era impossível que estivessem fixos.
Maiores.
Maiores do que tudo.
E tinha medo.
Sentia uma tristeza tão pura.
Como quando nadava nos teus olhos em água.

Publicado por medusa em novembro 12, 2004 02:38 PM
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