"Num tempo em que se assume que “somos arquipélagos de subjectividades que se combinam diferentemente sob múltiplas circunstancias pessoais e colectivas (BSS, 1994, p.96), a noção de unidade é posta em causa, cada um se reconhece múltiplo e em construção, nem unitário, nem fixo. Conflui, aqui, a tentação do indivíduo se construir à revelia dos outros, em independência e em solidão, simulando para si próprio uma coerência que à partida não existe, uma transparência enganadora, por se basear na negação de si próprio e da sua complexidade, ou a tentação de se construir tão só com base na imagem construída pelos outros, nas imagens que se pensa serem sua expectativa, simulando uma identidade que o próprio sabe ser falsa ou pelo menos parcelarmente verdadeira ou onde o próprio falsamente se reconhece.
Em última instância, ambas as situações são simulações que dão ao próprio um sentido de segurança e um aparente controle sobre si próprio e sobre o que o rodeia. Mas estes podem ser também caminhos de superficialidade ou disfuncionalidade se, para além disso, ou em vez disso, o indivíduo não se envolver no aprofundamento de si próprio, em ligação com o seu ‘impulso e processo” (Wood e Zurcher, in Rosneau, 1991, p. 59), na interacção crítica com os contextos, dando voz às suas vozes, confrontando-se com as dos outros e procurando os seus próprios caminhos de comprometimento e de resistência (aos seus condicionalismos pessoais e sociais). Abre-se aí uma via de imprevisibilidade e de risco, mas também por isso de riqueza e qualidade, que poderá favorecer o desenvolvimento da confiança em si e da autenticidade. Uma autenticidade entendida aqui no sentido da afirmação do indivíduo como sujeito, criador de si próprio e ‘revisor’ de sociedade, encontrando os seus sentidos com o suporte do imaginário (Chebaux, 1999), na relação interpessoal com o outro (e não apenas em si mesmo ou na relação impessoal com o colectivo), ‘unindo o desejo e necessidades pessoais à consciência de pertença (Tourraine, 1992, p.261) e resistindo às imagens de si que a sociedade lhe impõe. Uma autenticidade onde a simulação pode ser, enquanto forma de criação de novas possibilidades e procura de conhecimento, o seu meio de concretização, aceitando e aproveitando a condição contemporânea de ‘um mundo real construído dentro … através de modelos de simulação (Baudrillard, 1983). Superando assim a conformidade a modelos sociais onde não se reconhece, sem se subtrair aos contextos socais em que se inscreve. Aceitar essa vulnerabilidade e o risco é assumir a diferença, a singularidade e a individualidade como um valor, uma individualidade que não signifique nem individualismo nem isolamento, que não resulte em apatia ou narcisismo, mas que também não redunde em auto-criticismo excessivo. Uma individualidade que se constrói na interdependência com os outros, embora também na solidão de cada um, porque ‘o arrancar à obscuridade equivale, muitas vezes, a destruir, e a colocar na sombra, a proteger-se (Serres, 1996, p. 199). Este é um jogo cujas regras não são nem constantes para cada indivíduo, nem muito menos comuns para todos eles. Encontrar os modos de ultrapassar o individualismo e o isolamento, bem como resistir à tentação de simulação, à revelia da autenticidade e de dignidade pessoal, encontrar os modos de cada um construir essa autenticidade, sem deixar de se perceber híbrido, plural, descentrado, distanciado, produtor e produto de miscenização, são alguns dos desafios que, nessa tensão entre modernidade e pós-modernidade, se colocam aos vários níveis da acção humana. "
(Caetano, 2001)
Publicado por medusa em outubro 19, 2004 03:14 PMNão me esqueci. Mas estou com mt coisa. Também com saudades de ir ao gabinete e encontrarte ali para conversar. Abraços
PS: Vila praia?
Afixado por: Pablo em outubro 20, 2004 10:09 AM