julho 05, 2004

M&M's dialogues

O Quadro
(a rapariga sorri sem intermitência. sorri sempre )

- Parece que estamos a ver uma pintura. e podemos analisá-la, vista assim, de fora.
- Parece que estamos a ver um espelho. analisas a pintura. isto é, analisas-te.

- o sorriso dela lembra-me uma palavra: ilusão.
- Ilusão: tua? ou dela?

A expectativa (que gera ilusão)

- o que achas que quer dizer essa atitude dela?
- não sei, nem me interessa. Não tenho relação nenhuma com ela. Para mim, ela é só um estranho com um rosto familiar. Não a conheço.
- Essa expressão é boa: "um estranho com um rosto familiar". Há todo um pressuposto a sustentá-la... Pode uma cara familiar ser um estranho?
- Uma imagem física diz muito pouco sobre a outra pessoa. É preciso conhece-la.
- Mas talvez diga muito de ti. Um estranho com um rosto familiar pode revelar muito a teu respeito. O rosto. As linhas que compõem um rosto que tu olhas, que tu queres olhar. O outro estático, o outro rosto e braços e mãos e corpo e voz diz muito sobre ti. Porquê esse outro e não um qualquer outro?
- Estás sempre a tirar ilações de tudo o que eu digo... Não estarás tu a fazer projecções sobre mim?
- Não percebo.
- Recuso-me a falar. Isto é apenas um jogo de palavras. É lógica, desprovida de significado. É só um xadrez. Tu dominas a arte do jogo linguístico.
- O significado... era tudo o que eu procurava. Por isso te digo que é tudo mentira. É tudo mentira. Não me compreendes. O que te habita quando falas? Qual o moviemnto da palavra que me proferes? De onde vem o teu discurso e o que ele procura? Quando eu sei que tudo é tão relativo, que tudo é mentira... Já não há verdades, já aprendemos isso. Agora estamos por nossa conta. E ainda assim, falamos... discursamos, dizemos isto e aquilo... mas porque isto e aquilo?
- Isso são fundamentalismos! Tu tens de conhecer as pessoas. Conheces o rosto através do diálogo.
- E conheceremos o outro através da fala? Só através dela? Ou pode um estranho de rosto familiar não ser estranho? Será teu o teu discurso?
- Há que ser honesto, honrar a palavra.
- Todas a palavras? Honrar todas as palavras? Faze-las nossas? Então há que ter cuidado, falar pouco.
- Assim pergunto-me porque é que falamos...
- Sim, porque é que falamos?
- Não sei.
- Não sabes. Ainda assim, falas.
- Terias de perguntar aos primatas porque é que começaram a emitir aqueles grunhidos!
- Não em pergunto sobre o que nos permite falar mas antes do porque de falarmos. porque é que tu falas? O que é que te torna sujeito do discurso? Quem te habita quando discursas? Quem falará por nós?
- Qual é a tua finalidade?
- Em que?
- Em registar a conversa.
- É essa: registar a conversa. Materializá-la. Há muita gente doida por aí.

A exposição musical (ou da estética e do desejo)

- De que musica dela gostaste mais?
- Gostei mais dele. Quer dizer, o que mais gostei foi o arranjo que ele fez.
- Isso é o mesmo que te levar a uma exposição de pintura, perguntar-te de que quadro gostaste mais e tu responderes: da legenda!
- Sim, pode ser.
- Mas eu respeito a tua opinião. Somos todos diferentes. É uma opinião legítima.
- Legítima porque?
- Porque somos todos diferentes e temos de aceitar essa diferença.
- Até onde? Se esta é legítima, haverá outra que não seja...
- Não, são todas... são todas legitimas...
- Então porque é que dizes que é legítima? É porque nunca deixará de ser diferença.

Retoma

- Um estranho com um rosto familiar... É uma boa expressão.
- Não é assim. Também há familiares que são estranhos. Achas que há dor maior do que perceber que não conheces alguém que esteve sempre ao teu lado? Lembras-te do Julio Cesar? "Até tu Brutus..."
- É o mesmo que não conhecer alguém que é ainda estranho.
- É diferente: aí não há desilusão.
- mas há uma parte de ti que não conehces, que o outro, estranho, te não devolve, embora tu suspeites intimamente que ele a guarda. Vês o outro, vês um espelho. O rosto do estranho mostra-te qualquer parte de ti, que te habita, e que tu não conheces.
- Mas quando tu já conheces o outro, podes desiludir-te.
- Também aí se trata de te conheceres a ti. O outro devolve-te uma imagem tua. Um dia, começa a devolver-te uma imagem diferente, tua ainda, mas que desconheces. O outro é sempre muitos. Assumes que o outro é habitado por um só outro, estável, contínuo no tempo.
- Eu não sou eu nem sou o outro...
- E o outro é muitos... em intermitência.

Publicado por medusa em julho 5, 2004 06:38 PM
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