agosto 16, 2004

Mais um

para proteger
é preciso ferir também

passo a mão pela bainha da saia
por cima dos joelhos bem juntos
é branca a saia e bordada de azul, em flores pequeninas junto à bainha
com um folho por baixo
(eu visto calças justas e estico as pernas para parecerem maiores
e eu ao cimo delas mais alta mais longe)

os sapatos são de pele e não tem salto
sinto o chão por onde passo e caminho silenciosamente
movendo-me entre salas e quartos e fundos e entradas da casa
(eu uso botas altas com saltos altos para me sentir acima do chão
e olhar para baixo e sentir que há alguma coisa que se pisa e não se sente
sequer o que é. se um bicho morrer sob os meus pés só ouço a carapaça estalar)

as minhas pernas são brancas e quando me sento fecho as pernas
encosto os joelhos
sinto as minhas pernas tocarem-se e há nisso qualquer coisa que me assusta
(eu afasto as pernas e cerco-te nelas prendo-te nas minhas pernas musculos quentes)

caminho até à janela do piso de cima
e gosto quando algum magala me sorri
e coro quando algum se atreve a prever a subida das minhas pernas brancas
(eu escolho os homens com s quais me deito
e misturo as minhas pernas nas pernas deles e há nisso qualquer repetição)

quando coro mexo no cabelo
comprido e castanho em anéis soltos que seguro com ganchos pequenos
cada gancho segura o cabelo para que ela não esvoace
nem me caia sobre o rosto nem penda junto à minha boca enquanto falo
embora fale pouco
(eu cortei o cabelo para ser mais fácil passares nele as tuas mãos)

de noite tenho sonhos que não posso contar
e tento esquece-los sempre
assutas-me o corpo quando o não dirijo
(eu conheço bem o meu corpo e todo o seu funcionamento
e ensino-te a fazeres dele contigo musica nossa)

arrumo a casa
limpo e decoro
enquanto lembro o sorriso branco de um rapaz
e os seus olhos fundos brilhantes
(eu faço as malas sempre é preciso partir no tempo certo e estar em constante movimento)

Publicado por medusa em agosto 16, 2004 03:56 PM
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