Não chores
Cala o teu soluçar frenetico
Ninguém o vai ouvir
Cuidado no passo
Não tropeces, não tombes
Ninguém te vai amparar
Está frio
Não tremas
Não estendas a mão
O abraço de Ninguém te espera
Mas há o fruto
O fruto só que provaste
Toma-o
Retoma o pecado original
nenhum capital, nenhum secundário
que a Hora é de Verdade
Toma o fruto que te dou
é amargo
chupa o suco
que é fel
e trinca-o bem
que é tenro e aspero
mastiga e engole
esse fruto que te dou
deixa-o dentro de ti
sempre foi Teu
bebe
o leite negro
que desde Celan te espera
na beira do Sena
e assume o rosto no espelho
assume cada ruga e cada cicatriz
cada expressão que teu rosto traduz
e não te esqueças de olhar de frente,
nesta hora exacta,
o teu verdadeiro rosto
esse que Ninguém vê
não te esqueças de olhar dentro dos teus olhos
e ver o olhar que Ninguém vê
e de gritar o teu verdadeiro nome
esse que está intacto
esse que Ninguém te deu