há dias em que acordo para ser criança
e me deixar pular de alegria por essa prenda invisivel que me dás
outros dias acontece de eu ser adulta
para tratar com cuidado os assuntos sérios de que me responsabilizo
às vezes acordo com preguiça
e sou languida e irresponsável
e gosto mais da luz do sol e das coisas fúteis
dias há em que me recuso ao espelho
e me recuso ao outro
porque não me aceito
ou então acontece de eu sair a correr para encontrar este e aquele
e para que me vejam e eu brilhe mais e mais
dias há em que me sento para ser branda e observar a pureza de todos os encontros
mas muitas vezes acordo guerreira e visto a armadura mais forte que tenho
para me poderes atirar pedras e eu não deixar que me magoes
às vezes abraço-te para teres um abrigo
mas outras atiço-te para veres os teus novelos mal enredados
e ponho sal nas tuas feridas para que não te esqueças de as tratar
há dias em que me sinto cansada e prefiro esperar por outro sol
mas propício para a viagem e por isso mantenho a noite e redor e não acendo luzes
e há mesmo dias em que me perco numa infinidade de amores e não dou a cada um o tempo devido
há dias em que olho para ti e outros em que não
há dias em que me evito e em que actuo com medo de me ver mais de dentro
há dias em que não me reconheço e não sei como sou
há dias também em que não sei usar a liberdade de ser o que quero ser
há ainda dias em que me experimento como se deixasse de ser eu
mas em todos os dias não sou ponte, nem outro, nem tédio.
em cada dia sou eu
apenas eu
sempre eu
em expansão