maio 21, 2004

Vamos pôr tudo branco no preto

não
ele diz que não
que não a deseja
que ela não o constroi
e que quase nem existe no seu universo
não conta não se vê não tem valor
e amigo adverte: cuidado, ela é intensa não se prendam
que é mas dificil voar quando se está enlaçado
e diz
afastem-se
não vale a pena
ela não brilha não eleva não
ele fala
ele conta que ela não tem bons sentimentos por ele
que ele sofre porque injustiçado
mas não fala por gostar antes por ela a isso o obrigar
e ele narra-a e narra-se também
apenas para dizer que não, que ele é melhor que ela
e ela existe na narrativa apenas para ser marco
referência de comparação
e gosta de a ter por perto
para que ela prove como ele é melhor que ela
mas não
ele diz que não
que não a deseja.

ela sim
ela diz que sim
que ele é um amigo
aqueles por quem temos respeito
nada mais
e presa ela a ele diz que sim
que ele vive muitas emoções porque quer voar muito e não pode
ela cala-o para se calar a si também
narrando assim memórias doces
e possbilidades já consumadas
que ela não pode deixar sair
e por isso ela faz dele silêncio
salvo os momentos em que diz que sim
que ele é do bem
e diz-lhe sempre que sim a ele
para se decsulpar de não ser como ele
porque ela é diferente
e marca-se nessa diferença
para dizer o que ela não é como ele
e o que é como ele não é
e o que ela aprendeu com ele e que não poderá ser
e o que ele não aprendeu com ela porque não quer ser
e gosta de estar perto dele para provar
como ela é melhor que ele
mas sim
ela diz que sim
que não o deseja.

ele fala-se nela
ela cala-se nele

na indiferença que um tem pelo outro constroém-se assim
para dizer que um não deseja o outro porque se um desejasse outro
deixaria de ser um para ser outro e de ser outro para ser um
e então consumir-se-iam e perderiam o jogo das vontades
e uma fogueira aconteceria pois o intelecto e o afecto acordariam
e compreenderiam então que tudo é mentira e depois...
não haveria razão para manter a verdade e teriam de aceitar a mentira
mas tal não pode ser porque temos de ser todos verdadeiros e amigos,
afinal quem é que andamos a enganar?


Moral da história: o pensamento pós-moderno é complexo.
ou melhor, o afecto pós-moderno é hologramático.


Publicado por medusa em maio 21, 2004 10:39 AM
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