maio 20, 2004

As 3 Marias em 1971


"... Pegando, por exemplo, numa linha: corpo de mulher, onde é sugado
e exausto o sexo duro do homem, sua breve participação na feitura do filho
- filho da riqueza, mão-de-obra, imortalidade em outro - corpo de mulher com
seu sangue e ciclos e que se rasga noutro corpo filho, mistério de vida e de
morte, escândalo de um corpo demasiado próximo da natureza que o homem
tenta dominar receando sempre suas vinganças, medo do corpo, corpo de
perdição, medo de castração nele, homem erecto e constructor mas a quem só
a mulher para os filhos, mulher marginalizada naquilo que o homem rejeita
nas suas escolhas pragmáticas, intuição feminina (a mulher tem artes, diz o
povo e Freud considerou-a, et pour cause, muito mais atenta do que
o homem, ao significado dos esquecimentos e actos ralhados), eterno feminino,
magia, bruxa, demoníaca, possessa, vampe (ah, mulher! que é para te comprar que eu trabalho
há séculos, e minhas leis, e tu sempre me foges), corpo que se
possui, terra do homem, carne da sua carne, costela de Adão, homem faz-se
mãe da mulher para a reorganizar nas suas origens, a partir do caos, mulher
poder de tentação e de pacto com a desordem, poder e escândalo, sentimento
de culpa do homem, sua crítica marginal, sua imagem negativa...
Vêm de longe os nossos medos, as nossas ditaduras e os retratos demiúrgicos dos nossos chefes.
Em toda esta linha que eu mal puxei, se ensopam e mitificam nossas políticas, nossas éticas,
nossos amores a dois.
Nossos amores a dois, onde os homens se nos chegam assim,
vindos daquela cavalgada,
em sua imagem social presente,
destrutivos, fazendo o vazio à sua volta, afirmando-se
sempre contra alguém ou alguma coisa, erectos não por si mas por força de ir
contra outro, sempre cegos e sempre sós no seu solilóquio perante nós, que
substitui, diálogo, connosco, impossível; seu vazio diz-nos «minha sombra de
nada», seu medo diz-nos «minha raiz de tudo»; e nesta carência, por seu
medo, é nova invasão que se prepara, «em ti me enxerto, eu cepa usada, lua
seiva sugo». Chegará tempo de amor, em que dois se amem sem que uso ou
utilidade mútua se vejam e procurem, mas apenas prazer, prazer.
Só no dar e no receber?"

(em 1971...)

Publicado por medusa em maio 20, 2004 06:52 PM
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