"... Vejo nos teus olhos aquele atrevimento alegre que passa com a juventude,
dando lugar a olhos tão melancólicos, embora esperançados, a gestos tão
hesitantes, que se percebe logo que a morte já está espreitando.
A juventude não conhece perigos. Ou se os conhece finge, e ignora,
sente-se forte, sente-se à altura deles, espera até que eles surjam,
daqui ou dacolá, para lhes fazer frente.
Olho para ti e não consigo ver como foi a tua infância.
Ou não tiveste infância? Tiveste por acaso uma mãe carinhosa?
Ou faltou-te essa experiência de um corpo mais profundo, onde podias
enterrar-te, como na lama, ou na areia, ou afundar-te como no mar,
afundar-te, preparando-te já para alguma inesperada morte,
porque é sempre de morte que se trata... de uma morte adiada.
A morte assume o rosto, o corpo, a forma da nossa mãe.
Por isso não deve assustar. A mãe que sai das trevas e conduz.
Ou tiveste, pelo contrário, um pai severo, ciumento, como são tantos pais,
inquietos com o amor que a mãe lhes dedica a eles e não devia ser
partilhado, devia ser só dos pais.
Um pai que te chicoteava às escondidas e te proibia de falar
e não gostava de te ver, hoje, com um tal penteado? ..."
(Yvette K. Centeno, O Pecado Original)
Publicado por medusa em maio 6, 2004 12:59 PM