– Eu tenho medos… que me assaltam de noite…
Medo de não ser grande,
medo que me destruam numa noite escura…
Ora que coisa é essa que me dizes?
Senta-te aqui.
Aqui onde eu estou.
(Respiro fundo, inspiro até que a luz chegue a cada célula, até à última célula. Expiro lentamente, deixando sair tudo o que não me faz falta. Levanta-se o vento e o meu cabelo esvoaça. Fecho os olhos para ver melhor onde estou.)
Encosto-me
Abro os braços
Abro o corpo, deixo-o assim exposto ao ar doce que me rodeia e à paisagem de branca e rosa e amarela.
Sim. Foi sempre deste lugar que me falaste. Sempre aqui estiveste.
Estendo o olhar e acompanho-me de um sorriso um pouco tonto, um pouco embriagado.
Serenamente, participo na ordem das coisas.
Avisto o que me rodeia e vem até mim e me convida a participar no que não sou.
Tranquilamente,
Sei que o que me espera é um caminho protegido.
Sei que agora é um espaço imenso.
E que estar só, é só uma vontade de espraiar o pensamento. E nunca estou o estou.
Aqui onde estou também sei que posso ser alimento.
(eu guardo memórias de um restaurante onde se servem refeições quentes e saborosas acompanhadas por um sorriso aberto a viajantes que se procuram. E também de uma hospedaria que oferece conforto e acolhimento em noites mais escuras, noites adversas, noites que só existem para ajudar a formar esse espaço de acolhimento. Eu quero ser esse restaurante e essa hospedaria).
Aqui a poesia é vestida por sobre a pele.
Deixa de ser palavra
Para ser hora e olhar.
E agora recordo essa viagem mítica que fiz com dois heróis do meu tempo.
Se calhar sonhei. E continuo a sonhar com uma paisagem bucólica com cheiro a lavanda.
Parece então que andámos por aí a construir os sonhos que eu hei-de sonhar e que me sustentam a realidade.
Fomos quatro (sim, o Caeiro também por lá nos acompanhou, rebolando nos campos)
Fomos muitos (que connosco na memória levámos)
Voltámos mais (mais nós, prontos para outros).
Eu sei que sempre aqui estive.
Mas sei também que haveremos de partir mais vezes. Muitas mais.