agosto 20, 2003

Das (Im)perfeições

O encontro (meu e agora teu) com a irónica nudez de Henry Miller:

"(...) Sorrio, porque todas as vezes que abordamos o assunto do livro que ele escreverá, um dia, as coisas assumem um aspecto incongruente. (...)
O livro terá de ser absolutamente original, absolutamente perfeito. É por isso, entre outras coisas, que lhe é impossível começá-lo. Assim que tem uma ideia começa a aprofundá-la, a pô-la em causa. Lembra-se que Dostoievski a utilizou, ou Hamsun, ou outro qualquer. «Não quero dizer que pretendo ser melhor do que eles, mas pretendo ser diferente», explica. E por isso, em vez de tratar de escrever o seu livro, lê um autor após outro a fim de ter a certeza absoluta de que não meterá foice em seara alheia. E quanto mais lê, mais desdenhoso se torna. Nenhum deles o satisfaz. Nenhum deles alcança o grau de perfeição que impôs a si próprio. E, esquecendo por completo que não escreveu nem um capítulo, fala deles condescendentemente, como se existisse uma prateleira cheia de livros com o seu nome, livros com os quais todos estão familiarizados e cujos títulos é, portanto, supérfluo mencionar."

Trópico de Câncer

Publicado por medusa em agosto 20, 2003 11:30 PM
Comentários

"(...)E, esquecendo por completo que não escreveu nem um capítulo, fala deles condescendentemente, como se existisse uma prateleira cheia de livros com o seu nome, livros com os quais todos estão familiarizados e cujos títulos é, portanto, supérfluo mencionar."

Ironia dos destinos! oh, fatum cruel!
Esta medusa não "fala deles" mas esqueceu-se que todos esperamos a produção de todos esses belíssimos capítulos que se embrenham e enrolam em cada pedaço da sua mente (ou do que a cobre...).
Esperamos por ti, medusa. Esperamos aqui.

Afixado por: Helder em setembro 10, 2003 10:16 PM