maio 18, 2003

mandala

Era ali junto a esse Tejo
Que eu costumava sonhar
Tinha o sol por perto e as ruas estreitas de cheiro
Estreitas de fado

A brancura das casas, a história presente em cada detalhe

Essas fotos de Lisboa antiga que agora me envias lembram-me como era ser criançaa então. Sem medos, sem culpas e sem relógio. Era largo o tempo quando me sentava nas pedras da calçada ou num degrau daquela igreja, testemunha anciã de; de Saturno. Recordo o arrulhar dos pombos que me habitava os sonhos, terrível na sua inacessível razão. E o cheiro a petróleo da velha mercearia, shopping de então, com coisas de gente crescida. A fruta gulosa nas portas e os sons mulher vibração ecoavam em cada canto do cé;u aberto.
Subir aquela escada larga em passo mais largo ainda.
Deslizar pelo corrimão verde numa aventura, circo vivo de emoções.
As sandálias grandes da minha mãe batiam-me alto na calçada da rua íngreme que prometia uma queda, e um joelho manchado. O que arde cura! consolo sobre o algodão que não curava a ferida antes exigia um mimo maternal.
Olhando bem, ouço ainda os sinos da igreja grande e de portas pesadas.
E as banquinhas das festas, as cores dos santos, o ritmo fácil e contagiante.
As bombocas e os nogats!

O meu nome está; ainda em cada canto, gritado de janelas pequeninas de águas furtadas.
Ouço o vizinho amigo família. Da minha casa vê-se a tua, mesmo lá dentro, mesmo no fundo do teu espaço. Comunhão. Segredos trocados. Promessas feitas.

Entre o sol e a lua, gatos ronronam no telhado. Gatos do Tejo, gatos de Alfama que guardam a sabedoria dos tempos, gatos íntimos da verdade, frequentadores assíduos do absoluto.
O Tejo lá ao fundo e nada é como era ou será. Movimento. Borbulhar, sussurrar de criança traquina. Reconheço a minha ténue existência no cheiro dessas fotos.
Alfama mater matrix
Alfama em círculo redondo contendo um ponto meu ao centro.

Publicado por medusa em maio 18, 2003 07:16 PM
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