em cachoeira fresca e verde limpei minh' alma
liberando na água cada detalhe que me já não serve porque meu corpo cresceu,
folhas caídas de meu peito,
peles secas e rugosas de meu rosto,
escamas memoriais,
velhas raízes já sem vida,
retirei-as minuciosamente dos meus cabelos,
desfiei a hera dos meus dedos,
e lentamente despi a pele já solta e o ar invadiu-me fresco e doce,
prana com cheiro a limão verde.
Soltei as conchas da minha boca e os búzios dos meus ouvidos,
abri os pequenos cofres do meu sótão
soltei pássaros que abriam asas nos meus olhos,
abri janelas com vista para o horizonte
brancura lisa e densa, plástica, elástica
que me recolhe e me projecta.
recoloquei-me na praia
reabri esses rios que me ligam ao céu.
atenta que estou a ti,
e que o teu sopro seja para mim de novo Verbo, palavra e luz.
e que me inundes e banhes de ti e eu te seja.